o fim, minha amiga


a bateira dorme

aqui estou encalhada
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais uma serei
a somar às que já foram

quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser

deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio

dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo

eu
eu não acordarei mais

 (a bateira dorme; torreira)

acender o instante


por detrás da mão, mário laginha

por detrás da mão, mário laginha

 

regresso

ao silêncio vestido de música

das notas escritas numa folha

não as entendo

olhos guiam mãos fraseados

que se perdem na criação de

 

escuto

a fuga das vozes para uma só boca

o marfim rebrilha à carícia dos dedos

estendo os olhos por sobre a sombra

busco uma luz possível

 

acendo o instante

 

(tone music school, coimbra; abril 2014)

 

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um piano
um homem
uma voz
uma mulher

jazz

laginha, o mário
rita maria
os que souberam
foram felizes

momentos luminosos

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um presente para gabo


guardei-te um momento
longe de tudo
o que te era familiar
queria-o assim
único

presente de um passado
em que te habitei sem o saberes
em que fui outro só porque
te conheci sem que me conhecesses
eu era apenas mais um
de entre todos os que para ti
eram o mundo

hoje continuo a ser teu habitante
quando tu já não te sentas na cadeira do costume
com os amigos de sempre
porque partiste
para lado algum
partiste
só isso

abraço-te agora como nunca
por dentro das palavras que deixaste
para mim não partiste
pela simples razão que sempre te tive
como te tenho hoje
embrulhado em palavras mágicas

são para ti estes barcos
gabo
navega com eles e sê onde

encontramo-nos por aí

murtosa; regata bico; 2007

hoje morreu gabo e não morreu


cabrita de pé nos cabeços da ria

o tempo gabriel
o tempo
o tempo que tu tão bem
construíste e desconstruíste

algures  na floresta de maconde
um coronel
mortes anunciadas
(a tua a nossa a de todos)
cem anos
putas tristes
quantas histórias
fantasticamente reais
os buendia sempre

o tempo levou-te
o tempo
de estares aqui gabo

a névoa envolve tudo
a labuta dos dias da escrita
dos jornais dos livros dos editores
das palavras
gabo

por entre uma outra névoa
três homens arrancam da lama da ria
com que sobreviver nesta terra
nunca te leram
não sabem quem és

mas foi para eles
foi por eles que escreveste

abraço gabo

(torreira; cabrita de pé nos cabeços)

até quando?


os cisnes da ria ainda em bando

tudo agora é aqui
assim te sentes perante estas imagens
nada existe para além de
nada é
nada

suspendeste o tempo
és

regressas por instantes e
refazes tempos e cenários
a memória é a mão que te guia
nesta viagem quase impossível ao tempo
quando
ao lugar onde
tudo é recriado para ser mais ainda

suspendeste o tempo
sacodes o cabelo
voas no vento onde os cisnes

até quando?

os cisnes da ria ainda em bando

(regata de moliceiros; bico; murtosa; 2007)

a propósito dos 40 anos do 25 de abril


que fique bem claro
o abecedário de abril
começa com c de capitães

40 anos de abril
não se fariam sem o 25 dos capitães

canta a galinha no poleiro
sai-lhe desafinada a voz
porque sem educação

outro galo cantaria se a dita
ao bicar no chão que pisa
reconhecesse que o milho que come
outros lho semearam
mas é fraqueza de galináceo
ter cérebro diminuto

e patas sujas

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

canso-me


o alar da solheira no chegado, murtosa

agarrar o tempo
pelas pontas dos momentos
onde estive
onde estou
onde estás
onde estaremos

agarrar o tempo
como se não a areia por entre
os dedos
escorrendo imparável
sem destino que os pés
do tempo ele mesmo

agarrar o tempo
o exacto instante em que
tudo se condensou
para ser (e)ternamente belo
enquanto memória
presente

canso-me

o alar da solheira no chegado, murtosa

….enquanto escrevi, algures num recanto do tempo, os pescadores continuam alar as redes e a esperar que emalhado o pão da ria chegue para a janta….

(ria de aveiro; murtosa; chegado)