
onde as palavras
para dizer isto
de vencer o medo
galgar as ondas
e sorrir à espuma?
(torreira; companha do marco; 2010)

aqui estou encalhada
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais uma serei
a somar às que já foram
quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser
deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio
dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo
eu
eu não acordarei mais
(a bateira dorme; torreira)
regresso
ao silêncio vestido de música
das notas escritas numa folha
não as entendo
olhos guiam mãos fraseados
que se perdem na criação de
escuto
a fuga das vozes para uma só boca
o marfim rebrilha à carícia dos dedos
estendo os olhos por sobre a sombra
busco uma luz possível
acendo o instante
(tone music school, coimbra; abril 2014)
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um piano
um homem
uma voz
uma mulher
jazz
laginha, o mário
rita maria
os que souberam
foram felizes
momentos luminosos
guardei-te um momento
longe de tudo
o que te era familiar
queria-o assim
único
presente de um passado
em que te habitei sem o saberes
em que fui outro só porque
te conheci sem que me conhecesses
eu era apenas mais um
de entre todos os que para ti
eram o mundo
hoje continuo a ser teu habitante
quando tu já não te sentas na cadeira do costume
com os amigos de sempre
porque partiste
para lado algum
partiste
só isso
abraço-te agora como nunca
por dentro das palavras que deixaste
para mim não partiste
pela simples razão que sempre te tive
como te tenho hoje
embrulhado em palavras mágicas
são para ti estes barcos
gabo
navega com eles e sê onde
encontramo-nos por aí
murtosa; regata bico; 2007
o tempo gabriel
o tempo
o tempo que tu tão bem
construíste e desconstruíste
algures na floresta de maconde
um coronel
mortes anunciadas
(a tua a nossa a de todos)
cem anos
putas tristes
quantas histórias
fantasticamente reais
os buendia sempre
o tempo levou-te
o tempo
de estares aqui gabo
a névoa envolve tudo
a labuta dos dias da escrita
dos jornais dos livros dos editores
das palavras
gabo
por entre uma outra névoa
três homens arrancam da lama da ria
com que sobreviver nesta terra
nunca te leram
não sabem quem és
mas foi para eles
foi por eles que escreveste
abraço gabo
(torreira; cabrita de pé nos cabeços)

tudo agora é aqui
assim te sentes perante estas imagens
nada existe para além de
nada é
nada
suspendeste o tempo
és
regressas por instantes e
refazes tempos e cenários
a memória é a mão que te guia
nesta viagem quase impossível ao tempo
quando
ao lugar onde
tudo é recriado para ser mais ainda
suspendeste o tempo
sacodes o cabelo
voas no vento onde os cisnes
até quando?
(regata de moliceiros; bico; murtosa; 2007)

que fique bem claro
o abecedário de abril
começa com c de capitães
40 anos de abril
não se fariam sem o 25 dos capitães
canta a galinha no poleiro
sai-lhe desafinada a voz
porque sem educação
outro galo cantaria se a dita
ao bicar no chão que pisa
reconhecesse que o milho que come
outros lho semearam
mas é fraqueza de galináceo
ter cérebro diminuto
e patas sujas
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
agarrar o tempo
pelas pontas dos momentos
onde estive
onde estou
onde estás
onde estaremos
agarrar o tempo
como se não a areia por entre
os dedos
escorrendo imparável
sem destino que os pés
do tempo ele mesmo
agarrar o tempo
o exacto instante em que
tudo se condensou
para ser (e)ternamente belo
enquanto memória
presente
canso-me
….enquanto escrevi, algures num recanto do tempo, os pescadores continuam alar as redes e a esperar que emalhado o pão da ria chegue para a janta….
(ria de aveiro; murtosa; chegado)