de pé


 

 

 

torreira, barco de maria de fátima

torreira, barco de maria de fátima

é tempo
é sempre tempo
de fazer

agarra o sonho
ele só existe porque tu
desistir é matá-lo
é morreres sem teres sido

não esperes a mão que te prometeram
sê as mãos que tens
com elas faz e faz-te
tu és o sonho a querer ser coisa de tocar

ergue-te
de pé
diz bem alto

hoje aqui agora
sou e quero que sejam

por vezes toco a beleza


de tudo me fica
a tentativa vã
de querer ir mais fundo
à raiz das coisas
onde mora a memória
a casa se iniciou

sou apenas um que tentou
mais um que

semeio palavras e imagens
sonhos e amarguras
tempo a esmo
de histórias começadas e
nunca acabadas

acabarei
a boiar algures numa laguna
de tempo sem tempo
onde não serei
sequer coisa digna de se ver

olho a ria e admiro a beleza
das pequenas coisas
reencontrando nelas o imenso
do que vou perder

será sempre assim

(murtosa; cais do chegado)

demora-te


 

 

 

ribeira da arei, veiros

ribeira da arei, veiros

demora-te
onde os olhos te falarem
com palavras por inventar

silêncios guardados há muito
esperam-te como se desde sempre
por ti ali para ti

0 tempo
o tempo que levaste a aqui chegar
foi o necessário para que fosses tu

escuta-te e depois parte
estiveste aqui e foste de novo
o segredo revelá-lo-ás a quem

és outro
(ria de aveiro; ribeira da areia; veiros)

carta a quem


 

 

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

 

 
não
não me quero
à sombra dos ciprestes
no subterrâneo rumor dos vermes
sob flores de plástico

deixem-me ser
ainda que por breves instantes
espuma no bramido das ondas
abraçar uma última vez o mar que tanto amei

não manuel
não quero ir de burro
mas de barco

deixem-me
desejar onde estarei
quando já não for

 

(torreira; companha do marco; 2013)

procuro viver


 

 

algures no meio da ria com o salvador rilho

algures no meio da ria com o salvador rilho

quisera
ser o que conta
memórias minhas feitas tuas
do ter acontecido
e eu

caminho por onde
caminhos faço
efémero é ser eu aqui
e tu sempre
que é teu o devir
e o que para ti deixo

sou o que anda
e nada deixa
porque não fica

eu não existo
procuro viver

 

 

palavras


 

 

 

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

que de novo trazem
as minhas palavras
para além de minhas serem?
já tudo foi escrito
mortos estão os mestres

novidade
se há no que escrevo
é o facto de ser eu a escrevê-lo
prazer
se há no que escrevo
é tu o entenderes e fazeres teu
o sentir que nelas vai

se escrevo é apenas porque
me é tão necessário
(embora por vezes me canse de)
como respirar
é falar com ninguém falando para muitos

parto com o que trouxe
palavras
(ria de aveiro; torreira)

ser no instante


dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

 sei do tempo o ter sido
o ser ainda hoje o agora
o instante tudo o que

regresso sempre
aos mesmos locais
e já nada é o que recordo
revivo e não sou já
nada é

fui onde já não
aí permanece a memória
a viagem é irrepetível

viver é tão só
ser no instante

dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

(torreira)