o encontro


ao fundo o ti alfredo bitaolra, o alfredo amaral enrola a corda da calima

ao fundo o ti miguel bitaolra, o alfredo amaral enrola a corda da calima

não se desfazem os nós
que o mar fez
entrelaçaram-se as vidas
enquanto o forem
tempo houver

os que chegam
chegaram há muito
eram outros
quando
lembro-me de miúdos
a gatinhar da areia

os que partem
não partem nunca
afastam-se apenas
para serem o outro
o que foram
na memória contada
à mesa dos dias
onde entre dois copos
recrescem nas palavras

não se despedem nunca
marcam encontro onde

(torreira; companha do marco; 2010)

talhar o aberto


 

obrigado, tina rodrigues

aurora brandão

não sei o que não sei
e o não saber não custa
porque o não sei

o cultivar da ignorância
não é a ignorância do cultivado
é saber até onde posso

impossível saber tudo
bom saber muito
óptimo saber que sei

mas
já nem isso
perco-me demais
para me encontrar um pouco

não sei o como
sei que funciona
um dia vou saber mais
para ficar a saber o mesmo

talvez
fique feliz
talvez

 

(ria de aveiro; toreira; porto de abrigo)

 

obrigado tina rodrigues

o princípio da incerteza


alar da solheira (joão costeira)

estou de novo em plena ria
o joão ala as redes
suspenso do que nelas emalhado
poderá vir
terá largado num sítio bom?
terá tido sorte?

não há certezas
para além do saber da arte

o princípio da incerteza
pode ter sido enunciado por um físico
aplicado às ciências quase exactas
mas é dele que a pesca artesanal se faz
sem saber de ciência alguma

o joão continua sem pressas
braçada a braçada
a rede entra no barco

nada mais lhe resta que ter tido
sorte

(ria de aveiro; torreira; alar da solheira)

estar vivo


olho o que vi
e escrevo o que penso
por ter ficado a memória
de ter visto

o longe faz-se perto
tudo pode ser aqui agora
igual jamais
diverso porque recriado

dou-te o que recebi
como revejo hoje
não como o vi

o que te ofereço é
a minha memória

constrói a tua
estás vivo para criar

(regata de moliceiros; murtosa; bico; 2007)

digo de mim


 

passa por mim o baixo mondego

passa por mim o baixo mondego

 

 

como somos breves

como é ilusório este corpo onde

pendurado o pensar

 

sento-me e vejo que tudo passa

num infinitésimo de tempo

passado presente e futuro estão

 

caio e levanto-me ainda

sorvo o instante como se o último

e grito como se nascesse

 

digo de mim

 

(da janela do comboio, algures entre coimbra e a figueira da foz

nos 40 anos do 25 de abril


caminhos de abril

caminhos de abril

 

foram cravos que de balas
cansados estavam os que seguiram
o plano desenhado para a paz
por mãos certeiras e sábias
o segredo fora bem guardado

espalhados pela terra que pisamos
pedaços de corpos ou o suposto de o terem sido
vindos de guerras compradas por outros
onde como em todas entre morrer ou matar
não havia outro caminho
fugidos muitos de outras terras diziam
como os nossos

foram cravos e povo
foi um povo que não mais quis ser escravo
foram homens e mulheres
foi um dia diferente em que o sol nasceu
noite ainda
renovado acordou o país

quarenta anos passados
cansado de novo de outros senhores
de outros senhores
há quem continue disposto a lutar
pela beleza do sonho inconcretizado
aos quarenta anos não se está velho
nunca é tarde aos quarenta

o povo é sereno alguns dirão
também o plaino antes do furacão