palavras


 

 

 

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

que de novo trazem
as minhas palavras
para além de minhas serem?
já tudo foi escrito
mortos estão os mestres

novidade
se há no que escrevo
é o facto de ser eu a escrevê-lo
prazer
se há no que escrevo
é tu o entenderes e fazeres teu
o sentir que nelas vai

se escrevo é apenas porque
me é tão necessário
(embora por vezes me canse de)
como respirar
é falar com ninguém falando para muitos

parto com o que trouxe
palavras
(ria de aveiro; torreira)

ser no instante


dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

 sei do tempo o ter sido
o ser ainda hoje o agora
o instante tudo o que

regresso sempre
aos mesmos locais
e já nada é o que recordo
revivo e não sou já
nada é

fui onde já não
aí permanece a memória
a viagem é irrepetível

viver é tão só
ser no instante

dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

(torreira)

saída limpa


 

 

um depósito inovador

um depósito inovador

 

souberam dele porque
sabem de todos os que lhes interessam
os números somam-se nas máquinas
onde todos somos mais um
menos um
conforme as existências e as necessidades
estatísticas de interesses

depois de ter sido despojado de tudo
o que pensava ter ainda para viver
depois de tantos anos a dar para receber
recebeu a nova de que não ia receber o que
que apesar de trabalhar mais
iria ganhar menos
que mau grado os sacrifícios
o mínimo era o que lhe pagavam se ficasse

antes de partir
não perdeu tempo
em três sacos negros como os tempos
que se avizinhavam
juntou o que tinha e foi depositá-lo no banco
mais próximo
afinal era nos bancos que tudo começava e acabava

lixo depositou
afinal
nada mais quis que
uma saída limpa

confissão


deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

chega o dia em que conjugar
os verbos no pretérito
é forma quotidiana de
falar dos dias
somos mais o que fomos do
que o que pensamos vir a ser

somos porque fomos
e no que fomos o termos sido
seja um sorriso hoje
a saudade não cabe no tempo contado
cabe no tempo a descontar
por não haver tanto quanto houve

caminho cansado por vezes
mas com os bolsos cheios de dias
distribuo sorrisos quando digo de mim
histórias que podem parecer inventadas
mas que como eu

estão vivas

deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

(ria de aveiro; torreira)

as raízes


uma bateira aproxima-se enquanto me afasto

uma bateira aproxima-se  e eu… abraço raul

 

os rostos os gestos

as palavras os abraços

surgem ágeis

 

porém os nomes

fogem-me

 

a memória

os anos desgastaram-na(me)

 

para além do querer

o ser assim

esta coisa cheia de tantos

sem nome já

onde resistem imagens e emoções

 

como se chama?

 

alguns

reconstrução penosa e lenta

vêm vindo pela mão

da imagem e enchem-se de si

de mim de nós

a palavra forma-se sem pressas de

o nome regressa

sem mais ajuda

 

mas

como esquecer as raízes?

 

 

para ti, mãe


 

 

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

 

no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres

a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões

somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor

ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido

mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?

ouve mãe: eu sou

bota!


 

 

barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

à porta do mar
não se bate
nem se pergunta
se se pode entrar

entra quem sabe
porta dentro
a casa invade
toma por suas
janelas e paredes

haver dentro delas
pão que fará sorrir
quem em torno da mesa
é motivo que baste
para que o arrais grite

bota!

 

(torreira; companha do marco; 2010)