murmuramos muito


o salvador belo, larga a  bóia, assinalando um andar da solheira
pelos caminhos feitos
de passadeiras cobertos
os que do suor só sabem que nunca
vão para longe pela mão dos que
vão e vêm bastas vezes
vêm e vão as mesmas

e nós
nós aqui a dizer que sim
porque nada dizemos em voz alta
mas murmuramos muito
porém
deram-nos a voz para falarmos alto
dizermo-nos

no silêncio da ria
as palavras também vêm na rede
as que escrevo

as que te queria ouvir dizer
de pé
o salvador belo, larga a  bóia, assinalando um andar da solheira

(ao longe, muito perto, o meu amigo salvador belo, larga as redes da solheira)

no gesto a palavra dita


 

 

praia de mira, barco de mar s. josé

praia de mira, barco de mar s. josé

é tempo de gestos
de dizer fazendo
de ser o que negado foi
calar é consentir
afirmar-se é negar
recusar é querer

ergue-te
maior que tu só tu
ninguém tem o direito de te apoucar
cresce para que cresçam os que de ti
o tempo dos teus será o que lhes deixares

são estes os homens que descendem
dos que foram a longes terras e regressaram
os mais descendem dos que nunca partiram

de quem descendes tu
se não fores a recusa
e o afirmares bem alto
de pé?

 

(praia de mira; companha do zé monteiro)

dias de memória


 

regata de moliceiros, no bico, murtosa, 20017

 

passeio-me pelos dias
cheio de tudo e de nada
o que tenho me basta

há dias em que o cansaço
o desalento a desilusão
se somam e se tornam
maiores que o próprio dia
são os dias de memória

passeio-me por eles
como se os sobrevoasse
pesado e leve de tanto

chego e parto
fico porque

tudo começa
e acaba sem nunca

vou com as aves
escreveu o eugénio
eu quero ir com os cisnes

quero

(murtosa; bico; regata de moliceiros; 2007)

gorim


no guiador a chapa com o nome, obrigação legal

no guiador a chapa com o nome, obrigação legal

aprendi contigo que a terra
é nossa se nos saúdam

lembro-me do mais antigo tempo
eu jovem ainda quase gente
e tu
tu o homem bom de seres assim
de bicicleta os dois
e a saudação

bom dia senhor césar e companhia

eu era a companhia
a companhia que hoje permanece
por mais algum tempo
e a quem tu que já partiste há muito
continuas silenciosamente a acompanhar

isso fomos e seremos sempre
companheiros

o valor da palavra
mais do que dinheiro ou honrarias
a verdade acima da conveniência
o povo mais que os grandes
por bem que não por interesse

regresso a ti para ser eu
bom dia tio césar de ti o

gorim

 

(murtosa)

de pé


 

 

 

torreira, barco de maria de fátima

torreira, barco de maria de fátima

é tempo
é sempre tempo
de fazer

agarra o sonho
ele só existe porque tu
desistir é matá-lo
é morreres sem teres sido

não esperes a mão que te prometeram
sê as mãos que tens
com elas faz e faz-te
tu és o sonho a querer ser coisa de tocar

ergue-te
de pé
diz bem alto

hoje aqui agora
sou e quero que sejam

por vezes toco a beleza


de tudo me fica
a tentativa vã
de querer ir mais fundo
à raiz das coisas
onde mora a memória
a casa se iniciou

sou apenas um que tentou
mais um que

semeio palavras e imagens
sonhos e amarguras
tempo a esmo
de histórias começadas e
nunca acabadas

acabarei
a boiar algures numa laguna
de tempo sem tempo
onde não serei
sequer coisa digna de se ver

olho a ria e admiro a beleza
das pequenas coisas
reencontrando nelas o imenso
do que vou perder

será sempre assim

(murtosa; cais do chegado)

demora-te


 

 

 

ribeira da arei, veiros

ribeira da arei, veiros

demora-te
onde os olhos te falarem
com palavras por inventar

silêncios guardados há muito
esperam-te como se desde sempre
por ti ali para ti

0 tempo
o tempo que levaste a aqui chegar
foi o necessário para que fosses tu

escuta-te e depois parte
estiveste aqui e foste de novo
o segredo revelá-lo-ás a quem

és outro
(ria de aveiro; ribeira da areia; veiros)

carta a quem


 

 

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

 

 
não
não me quero
à sombra dos ciprestes
no subterrâneo rumor dos vermes
sob flores de plástico

deixem-me ser
ainda que por breves instantes
espuma no bramido das ondas
abraçar uma última vez o mar que tanto amei

não manuel
não quero ir de burro
mas de barco

deixem-me
desejar onde estarei
quando já não for

 

(torreira; companha do marco; 2013)

procuro viver


 

 

algures no meio da ria com o salvador rilho

algures no meio da ria com o salvador rilho

quisera
ser o que conta
memórias minhas feitas tuas
do ter acontecido
e eu

caminho por onde
caminhos faço
efémero é ser eu aqui
e tu sempre
que é teu o devir
e o que para ti deixo

sou o que anda
e nada deixa
porque não fica

eu não existo
procuro viver