a vida é
uma fina corda
tensa
sobre o abismo
(murtosa e torreira, 10.jun.2014)
companha do marco
entre os poetas
que se dão ao trabalho de ler
palavras minhas
penduradas em imagens
sou
um fotógrafo
ao contrário
entre os fotógrafos
que distraidamente
soletram os poemas
que às imagens junto
sou
um poeta
falar de mim é por isso
escrever em imagens
registar com palavras
sempre o outro
o que não é
passo por entre
e fico em mim
a ser eu
sorrindo
(lentamente a rede vai sendo colhida pelo joão costeira, e eu fico assim pendurado do que sou, a boiar nas águas da ria)
foi-se o tempo
regressam os dias
a isso chamam
recriar
recreiam-se alguns
com o recriar
na contemplação
do como era
tudo sobrevoam
sem poisar no ter sido
não
não era assim
era
vêm de longe
ver o que nunca viram
e vão sem terem visto
porque nunca nada é
o que foi quando foi
é tempo de recuperar a memória
de recriar
seja este o tempo de
preservar o presente
para que não seja ele também
passado já
os que da xávega vivem
dir-vos-iam isto
se fossem mais que pescadores
(torreira; recriação da xávega com bois, setembro 2013)
poderia dar-te tudo
mas é de nada que são feitos
os mais belos momentos
nada
é a possibilidade de seres
tu a fazer tudo
a solidão ensina-te a ler
as cores do silêncio
desenharás o que quiseres onde
e como te apetecer
tudo o que te ofereço
é o nada onde podes ser criador
de um mundo diverso
claro e diurno
fácil será receber
estar vivo é fazer
assim te quero
(no chegado a hora por vezes não chega)
pergunto à areia como resiste
à fúria invernal do mar
e continua aqui
leito de homens barcos artes
diz-me que do mar filha é
sempre foi
e um dia a ele retornará
destino de
fala-me me dos homens
das máquinas
que passado o inverno
a que foi poupada
a vêm roubar
para destinos que não seus
diz-me que histórias
muitas haveria para contar
mas é tarde
muito tarde
o sol queima
a areia arde
gastam o tempo em estarem vivos sem fazerem coisa outra que isso mesmo começam o dia quando sentam-se nos cafés lêm os jornais com a bica as necrologias em destaque depois da tensão ou o inverso que importa falam do porquê de estar assim aqui tudo onde eles também e pelo falar se ficam que mais já tempo foi de agora outros que perseguem a vida pelo puro prazer de nada para além dela que dela pensam saber o que fazer nada têm por projecto o estarem vivos isso lhes basta que coisa dura esta de estar por aqui vivos ainda
(torreira)
as mãos falam com os olhos
dizem-se o como
por onde
caminhos de artes ancestrais
refeitos
as redes sofridas de tanto mar
descansam o serem assim
nestas carícias breves
não há mãos rudes
nem caminhos de pedras
há homens
artes e mar
o tempo calou-se para
ouvir o norte
colori tudo para que saibas
a xávega
é oiro que nas tuas mãos
os olhos entregam
leva-a
(torreira; companha do marco; 2011)
tudo é muito célere o fugaz instante em que por aqui passo já foi quando por ele agarrar tudo porque tudo é súbito nada entender é viver dentro estar lá ali onde sei cada vez menos o cansaço chega à raiz de mim voo por sobre a ria para morrer ao sol
(na ria com o joão brandão e o joão dias)
como se criança
a rede pelas mãos
guiada e acarinhada
amor outro desta vida
de mar feita
como se mulher
abraçada
amantes antigos
de muito juntos serem
entrega-se
juntam-se
onde a vida se faz
aí se quedam
se reencontram
e são
mãos de rede
mãos de mar
de amar
mãos
(torreira; companha do marco; 2011)