crónicas da xávega, torreira (20)


 

e o maria de fátima vence de novo

e o maria de fátima vence de novo

(para o joão janz e o marco silva)

 

construir pontes
erguê-las na geografia
dos afectos por inventar
fazer dos amigos amigos
sermos mais

juntar mar e terra
trazer ao presente a memória
levá-la ao futuro
cavalgar as ondas dos dias
escrever cartas e ser delas o carteiro

estar vivo
nem sempre é cansaço e desilusão

 

(torreira; 2014)

 

parabéns marco

 

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postais da ria (23)


abílio carapelho (ti abílio carteirista)

abílio carapelho (ti abílio carteirista)

 

aos moliceiros resistentes

 
que fique destes homens
a memória de serem enormes
maiores que os barcos onde teimam
reviver um tempo onde jovens
noivos de uma ria que bela era

mais mereciam que as mansas falas
da pequena gente
que migalhas tardias distribui
apressada no aperto de mão
no sorriso fácil
no jeito de boiar na lama

as velas enfunar-se-ão uma vez mais
os moliceiros voarão por sobre as águas
a ria rejuvenescerá
tudo parecerá ser o que já não é
sem saber até quando será

até amanhã amigos

 
amanhã, dia 3 de agosto, há regata no bico. o vento parece que vai ajudar…

 

http://www.windguru.cz/pt/index.php?sc=48947

postais da ria (22)


 

manuel valas (vieira)

manuel valas (vieira)

 

caminhantes da ria
sabem por onde e quando

entre serra e mar
cima e baixo
navegaram anos muitos
à vela vara sirga
por esteiros cales secos

são eles que fazem
os cisnes voar

moliceiros
(ria de aveiro; murtosa; bico; regata 2012)

 

domingo, dia 3 de agosto, há regata no bico, murtosa. ainda ……

 

a preto e branco

a preto e branco

postais da ria (21)


 

 

regata do bico em 2010. num dia sem vento os cisnes não voam

regata do bico em 2010. num dia sem vento os cisnes não voam

procura o instante
o tempo dentro do tempo
o momento em que

sem vento
tudo parece parado
à espera
nada mais ilusório

é parado que o tempo
anda mais depressa

vive agora o ser agora
o que foi
o que será
são isso mesmo

bebe o mais ínfimo
fragmento da luz
fabrica o teu instante

já passou

 

 

(domingo, dia 3 de agosto, há regata no bico, ainda ….. aparece)

postais da ria (20)


 

 

cais do bico, agosto, 2012. antes da regata

cais do bico, agosto, 2012. antes da regata

 

estou onde os meus olhos
reencontro de mim
com o tempo mais íntimo

sou ainda o que vejo
não o que se vê
espelhado nas janelas dos dias

o que fui
o que de mim quisera
que não se perdesse
esse jovem louco e cheio de vida
o que se perdeu e se encontrou
para se perder de novo
e melhor se encontrar

o que fui
é no que sou
aquilo que te deixo
para ser ainda

guarda-o
como se a mim

 

(ria de aveiro; murtosa; bico; regata 2012)

 

domingo dia 3 de agosto, há de novo regata, ainda …. espero por ti

 

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crónicas da xávega, torreira (19)


 

 

 

ti horácio

ti horácio

 

tudo em nada se torna
é esse o trabalho do tempo

ao homem cumpre
em algo tornar
o nada que tudo foi

a memória
assassina-se preserva-se
constrói-se

serão rascunhos de imagens e palavras
o que vou semeando
nada mais que rascunhos

toma-os

 
(torreira; companha do marco; julho, 2014)

crónicas da xávega, torreira (17)


 

caminhos de areia

caminhos de areia

porque amavam o mar

 

há poucos dias
30 de junho para ser preciso
o poeta joaquim namorado
faria cem anos se vivo
hoje passam dez anos
sobre a morte de sophia

os poetas
os grandes poetas
vão crescendo na memória

o pulsar a vida
em cada verso
o sentir de um povo
em cada poema
serem de carne e sangue
as palavras
o seu legado

estar aqui ainda
é serem eles em nós

a voz necessária

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (16)


 

 

escolha do peixe

escolha do peixe

 
fossem de trabalho as mãos

 
entram e saem
compram vendem
vendem-nos
ganham muito sempre
astronómicas somas
pequeno o défice para tanto
para tão poucos

hoje eu
amanhã tu
sempre a famílias
os amigos
compadres
comparsas
comendo na mesa farta
revezam-se

fossem de trabalho os dias
seriam menos os que
de poleiro cantariam
de saber
que o que gastam e malbaratam
teriam de pagar

haja dinheiro basto
que advogados e padrinhos
não faltarão

a banca de novo

 
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (15)


o carregar do saco na zorra

o carregar do saco na zorra

 

meditação à beira mar
há os que lutam pelo futuro
os que vivem o presente
e os que choram o passado

há ainda
os que se fazem presente do presente
para ganharem no futuro
um lugar no passado

pode parecer apenas um jogo de
palavras
uma brincadeira em torno da gramática
mas é um retrato de muito boa gente
são tantos
tão pretensamente felizes consigo mesmos
tão tão eus

esquecem-se de uma coisa simples
é que podem
também eles
ser esquecidos

o espelho é de cristal fino

 

– o carregar do saco na zorra, é tarefa de peso –

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)