meditação de fim de ano


serenidade

 

acolhe-te em ti

és

 

sente tudo

como se tudo

fosses tu

e és

 

o reflexo

no espelho

sorri um sorriso intemporal

há gente

dentro do espelho

que desconhecias

és tu

 

todo o tempo

não é o tempo todo

no teu tempo

em cada instante

por mais ínfimo

 

uma voz sussurra

o teu nome

não o reconheces

estás longe de

és muito mais

és

 

no ser

assim

contigo

sou

recordo


reflectindo

 

sentado no banco
da memória
recordo

o brilho nos olhos
as caravelas velas pandas
das navegações sem retorno imaginado
o aroma das anémonas
sem terra à vista

a música a desprender-se
das coisas
sem pauta nem maestro nem instrumentos
a música de dentro
em clave de sol e sonho

braços por dentro de braços
e mais braços ainda
abraços tantos a abraçar

recordo

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira; marina dos pescadores)

amanhece na ria


amanhecer na marina da torreira

 
nem todas as manhãs
são a manhã
nem todos os dias
são o dia
 
porém
tu és neles o que deles
fizeres
 
serão ainda
quando tu já não
aí reside
a memória de teres sido
se acaso
o fores intensamente
 
quando
o dia for dia
mesmo sem o ser
e a manhã for a manhã
em que tudo se inicia
 
porque tu
só tu
podes ser-te

o cambar


SONY DSC

 
durante as regatas, de moliceiros e não só, a corrida pode-se perder ou ganhar, segundo a forma como se aborda e contorna as bóias que limitam o percurso.

na ria de aveiro diz-se que os barcos “cambam” quando a contornam, é um dos momentos mais interessantes de fotografar e onde a confusão é maior.

(torreira; regata do s. paio, 2010)

e já se foram


eram três velhotes

eram três cascos (carcaças) de moliceiro que repousavam no areal do bico.

durante anos serviram para enquadramentos de fotografia, chegando mesmo a dar um primeiro prémio num concurso de fotografia organizado pela câmara da murtosa.

abandonados por quem de direito ali estavam aguardando, talvez uma beata, que desencadeasse um incêndio e fosse desculpa para o seu desaparecimento.

no verão deste ano já lá não estavam. nem memória nem rastos dela.

asim se prepara o desaparecimento silencioso do mais belo barco do mundo.

(murtosa; bico)