ir ao mar com marco (10)


 

 

já a manga de mão da barca corre para o mar

já a manga de mão da barca corre para o mar

o saco já está no mar (vê-se a cortiçada colorida à rectaguarda da bica da ré), o arinque do saco, a calima, também (é vermelha e está no mar, ligeiramente à direita da cabeça do pescador de azul). a manga da mão de barca sai por bombordo.

aproveite-se este momento para distinguir os dois modos de fazer um lanço:

– mão acima:  o barco entra no mar em direcção ao sul, a rede sai por estibordo e o lanço é feito no sentido sul/norte

– mão abaixo: o barco sai em direcção a norte, a rede sai por bombordo, e o lanço é feito na direcção norte/sul

o lanço que estamos a acompanhar é um lanço “mão abaixo”

o que define de modo simples, se quisermos, o tipo de lanço, é a direcção tomada pelo largar da rede.

para estas caracterizações socorri-me dos meus mestres e amigos arrais: joão calada e marco silva.

na ria as orientações são similares : norte-cima; sul-baixo, nascente-serra e poente-mar.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (9)


 

 

já vai o saco na água e começa a ser largada a manga da mão de barca

já vai o saco na água e começa a ser largada a manga da mão de barca

 

este registo é a cores, porque só assim se conseguem visualizar, com mais nitidez, os detalhes de tudo o que se está a passar.

o saco já foi largado e vê-se, à tona da água, a cortiçada de cores variadas, distingue-se ainda à esquerda do meio da cortiçada, o saco, e ao fundo, à direita, o arinque do reçoeiro.

começa agora a ser largada a manga da mão de barca.

repare-se mais uma vez na atenção de toda a companha ao largar da rede.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (8)


 

a manga do reçoeiro vai sendo largada, segue-se o saco

a manga do reçoeiro vai sendo largada, segue-se o saco

 
larga-se a manga do reçoeiro, o agostinho tem por debaixo dele o saco que será lançado a seguir

repare-se, de novo, na atenção de toda a companha ao acto de largar. uma rede que não seja largada como deve ser pode comprometer todo o lanço

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (7)


 

e o arinque do calão do reçoeiro é lançando ao mar

e o arinque do calão do reçoeiro é lançando ao mar

 
presa ao calão, a bóia (arinque) que o sinaliza, vê-se na água, encostada ao limite lateral direito do registo.

a manga começa a ser largada. o agostinho segura no bordão, com os olhos postos na rede, não haja qualquer “embrulhanço” que atrase tudo. toda a companha olha para o mar, acompanhando o largar da rede.

quando falei, na foto anterior da necessidade de fazer o lanço o mais longe possível, fixou por dizer – falta de espaço – o seguinte:

convém lembrar aqui que as capitanias regulamentam e fixam, no início de cada safra as coordenadas entre as quais uma companha pode pescar, isto para evitar conflitos entre companhas vizinhas e proximidades a zonas balneares.

a distância da costa a que as pequenas motoras podem pescar, também se encontra definida legalmente. apesar disso não é anormal, antes pelo contrário, que elas venham arrastar a distância da costa inferior à legal e chegando mesmo a entrar nas zonas definidas para a xávega, estando um lanço a decorrer.

não é pois só da sorte que depende o peixe apanhado pelas redes da xávega, depende também das infracções feitas pelos arrastos costeiros das motoras, as quais, a maioria das vezes, as autoridades marítimas, mesmo se chamadas, raramente chegam a tempo e com meios para autuar.

fazer o lanço onde o melhor já foi apanhado ilegalmente é muitas vezes o que acontece na xávega.
(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (6)


 

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

 

largados já foram todas os rolos do reçoeiro, chegámos ao local definido pelo arrais para fazer o lanço. para tentar a sorte, para tentar ser ouvido por deus nas preces que fez ao largar.

a distância da costa a que se faz o lanço depende da “intuição” do arrais, ou do resultado de lanços anteriores da companha ou de outras vizinhas.

é claro que quanto mais longe da costa forem lançadas as redes, mais área é “varrida”, maior a probabilidade de um cardume ser apanhado, de  mais peixe “vir” na rede. mas, e isto é muito importante, quando se trata de pesca artesanal, é a sorte que decide. de outros factores falarei noutro momento.

o calão da manga do reçoeiro vai ser lançado ao mar, repare-se na função de “passadiço encaminhador” desempenhada por um bordão, que um camarada segura e se apoia numa furação feita na beirada do barco.

tudo agora é lento, preciso, o motor quase parado, o silêncio é interrompido somente por algum reparo do arrais no largar das redes.

este é, para mim, o momento que justifica o ter vindo. a sensação de não estar em lado nenhum e em toda a parte, é agora.
(torreira; companha do marco;2011)

ir ao mar com o marco (5)


 

 

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

vamos agora mar adentro, o reçoeiro corre por bombordo, pelo bordão que o ampara para que não se fira e siga sem nós.

 

vêem-se os rolos de corda do reçoeiro, na metade da ré do barco, por baixo dos quais estão as mangas.

 

note-se que o barco está na perpendicular à praia e na direcção do tractor que ala o reçoeiro.

 

cada vez mais longe da praia, mais perto do silêncio e, quem sabe, de algum cardume de carapau que encha o saco.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (4)


 

o reçoeiro laçado na bica da ré

o reçoeiro laçado na bica da ré

 

no registo anterior mostrava-se o reçoeiro com uma volta dada no escalamão de estibordo, para ficar preso enquanto o barco navega paralelo à costa.

neste registo, feito noutra ida ao mar, o arrais marco deu, na bica da ré, uma volta ao reçoeiro, para o prender. esta é a prática mais habitual.

o mesmo processo é utilizado no arribar do barco, só que agora a cala (corda) é a mão de barca, prendendo-a ou largando-a o arrais controla a aproximação do barco da praia, esperando boas ondas que, ao jeito do surf, o levam até à areia.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

xávega, os rolos de corda


ti miguel bitaolra

ti miguel bitaolra

o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.

cada uma destas “cordadas” é consituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.
o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.

o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.

(torreira; companha do marco; 2010)

xávega, o largar da muleta


barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

ao largar de forma tradicional, já o escrevi, o barco de mar tem três pontos de fixe em terra:

– a corda do reçoeiro

– a regeira (uma corda curta)

– a muleta

os três permitem que o barco se mantenha perpendicular à praia e às ondas, firme e com a bica da proa pronta a furar o mar. o perigo está no barco “dar de querena”, ou seja ficar de paralelo às ondas, o que fará com que vire com facilidade.

a muleta tradicional em madeira, apoia-se numa peça de metal existente na proa e é largada pelo arrais quando sente que o barco já não corre risco por estar “bem apontado ao mar”.

é o momento que aqui se regista, pode-se ver a flutuar a muleta, na zona inferior direita, que é puxada para terra por uma corda a que está presa.

(torreira; companha do marco; 2010)

safar o saco, safar a xávega


agostinho tabalhito (canhoto) e o arrais marco silva

agostinho tabalhito (canhoto) e o arrais marco silva

porque fotos como esta podem suscitar algumas dúvidas, que fique bem claro que “as malhagens da xávega são as constantes do diploma que a regulamenta”, por isso o tamanho do pescado não é resultado de qualquer ilegalidade.

porque se aproxima nova safra é importante meditar e repetir o já escrito sobre as capturas de “infantis” feitas pelas xávegas.

as redes deste tipo ao serem traccionadas, as mangas, formam aquilo a que os pescadores chamam “muro” fazendo com que o peixe apanhado na seu interior não saia e seja encaminhado para o saco, cuja malha tem as dimensões legais.

mesmo se se considerar que há peixe de pequenas dimensões, convém que se diga que “pequeno” é adjectivo e não substantivo e isto é muito importante.

pequeno para quem? pequeno para quê?

em primeiro lugar, do ponto de vista dos regulamentos europeus só há quotas para cavala, sardinha e carapau. é normal os espanhóis esgotarem a quota da cavala antes de ser época da xávega; a quota e as capturas de sardinha são absorvidas pelas traineiras; a quota do carapau raramente é atingida.

se pensarmos nas capturas dos chamados “infantis” pelas xávegas da nossa costa, elas só parecem ser em quantidade porque são visíveis nas praias. ninguém vê as capturas feitas pelos arrastos costeiros por motoras e outros barcos, não falando nas capturas do arrasto do alto. face a estes dois últimos as capturas da xávega são irrelevantes.

os que dizem que as capturas de “infantis” feitas pelas xávegas põem em causa a sustentabilidade do carapau e da sardinha nas nossas águas, deviam ter em conta a realidade global e não apenas “o que a vista alcança”. se não se atinge a quota de carapau definida pela união europeia, porque é que a captura  de “jaquinzinhos” é crime?

admitindo ainda que possa vir nas redes de dimensões legais, peixe de dimensões inferiores ao determinado pelas directivas, porque é que o carapau no mediterrâneo e nos açores pode ter tamanho inferior ao do atlântico – costa ocidental portuguesa?

se depois de chegar a terra todo o peixe apanhado acaba por morrer: areia nas guelras, feridas nas malhas… etc…. porque é que obrigam os pescadores a deitar ao mar peixe morto? fizessem-no eles e  muitas praias ficariam com água completamente poluída.

porque não deixam que seja aplicada a tradição, como foi proposto pela associação portuguesa de xávega e aprovado por todos os deputados, e que se o primeiro lanço dia der muito “jaquinzinho”, só deverá ser feito novo lanço à tarde e que se as capturas forem da mesma natureza não se farão mais lanços nesse dia. sempre foi assim. o produto dos lanços seria vendido e não deitado ao mar, o que não faz qualquer sentido.

porque querem matar a xávega?

qual o peso das capturas das xávegas face ao dos arrastões? justifica a perseguição a que estão sujeitos os pescadores desta arte que corre risco de extinção.

é tão bom ter um gabinete em bruxelas e tão duro ir ao mar.

 

(torreira; companha do marco; 2010)