crónicas da xávega (34) – um homem


de que massa és feito, massa?

de que massa és feito, massa?

quantos homens são
um homem?

não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda

enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem

quando deixa de o ser?

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

(torreira; companha do marco; 2012)

os moliceiros têm vela (12) – a propósito


para onde uns vão, já outros de lá regressam

para onde uns vão, já outros de lá regressam

“já vi fracassar o que era mais razoável
e triunfar o que era mais absurdo”

J. W. Goethe

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

(ria de aveiro; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (51) – sou murtoseiro


 muito dura a vida na ria

muito dura a vida na ria

a minha gente
fez da água terra

atravessou o mar
em busca de outras terras

a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram

a minha gente
fala de amor
quando diz

sou murtoseiro

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (50) – da liberdade


a sobrevivência na ria de aveiro

a sobrevivência na ria de aveiro

ser em cada dia
as mãos por dentro
limpas de brumas

caminhar
solto de amarras
compromissos silenciosos
aspirações irreveladas

a liberdade é um grito
contra os muros
um voo puro de ave
num céu desconhecido

nada mais te digo

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(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

murtoseiros


o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada

filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar

foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos

regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida

são murtoseiros

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(torreira; regata da ria, junho, 2014)

os moliceiros têm vela (7) – mudam-se os tempos ……


moliceiros no s. paio, anos 90

moliceiros no s. paio, anos 90

farão para aí uns dois anos, pelo verão, fazia eu o meu passeio pela beira ria quando, no areal em frente ao estaleiro do mestre zé rito, dou pelo domingos da grila a fazer uma caldeirada de enguias.

ele e um grupo de amigos tinham ido fazer uns lanços de chincha, para fazer uma caldeirada que, agora ao lume, perfumava aquele pedaço de praia remoçada.

de repente vieram-me à memória os tempos em que ia com a família, para a ilha do amoroso, fazíamos uns lanços de chincha e havia sempre enguias para saborear numa caldeirada à maneira.

levávamos as batatas, os temperos, talheres, toalhas, bebidas e pão. as enguias eram apanhadas na hora, lavadas e amanhadas à beira ria. havia areia na ilha e era com ela que se agarravam as enguias para serem amanhadas.

um brasido, uma panela, os saberes culinários dos meus tios césar e arcênsio, e a caldeirada era saboreada por uma família que a ria juntava.

foi essa memória que o domingos reavivou com a sua caldeirada. perguntou-me se queria almoçar com eles, mas eu já tinha almoçado, não recusei foi a prova do molho: estava boa. claro que a receita do domingos, era a receita do domingos, tinha-lhe até permitido ganhar um primeiro prémio num concurso de caldeiradas de enguias – palavras dele.

ora bem, eu tinha na minha posse a receita da caldeirada de enguias à murtoseira, deixada pelos meus tios avós e que o meu pai passou a escrito e eu guardei. para a publicar faltava-me apenas uma foto para a ilustrar. claro que aproveitei.

único problema, a receita do domingos leva pimentos e a tradicional, que eu transcrevi, não, mas a ideia estava lá. além disso os pimentos passavam meio desapercebidos na imagem.

no dia 25 de fevereiro, de 2013 publiquei no meu blog ahcravo.com um artigo intitulado “caldeirada de enguias à murtoseira”, ilustrado com a foto da caldeirada do domingos.

houve então quem pegasse no facto de a foto ter os pimentos para se indignar, porque a receita tradicional não os tinha.

interessante que os puristas, que então reclamaram pelo facto de verem, lá perdidos, uns pedaços de pimento, gostem agora da nova imagem de marca do município, tão fiel que é à traça de um moliceiro.

mudam-se os tempos …… ou será que mudou mais alguma coisa

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(torreira, s.paio)

o novo logotipo do município da murtosa: um segundo tempo


na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

para deixar descansar os designers da murtosa, que ao longo destes dias tenho vindo a conhecer – e são muitos, e respeitam-se mutuamente, o que é bonito -, iria agora analisar o procedimento administrativo e não só, que, tudo indica, conduziu à “Criação da Marca Institucional do Concelho da Murtosa”.

1 – dia 6 de novembro, de 2014 na página do facebook da empresa Artifex:

pub artifex

2 – dias depois reparei que a página do município da murtosa no facebook já apresentava a “ nova marca”, aliás a primeira publicação, na cronologia, com essa identificação era de dia 5 de novembro, data portanto anterior à da divulgação da Artifex, o que só abonava em favor da empresa.

3 – não haverá 2 dias e a publicação (um cartaz) ainda estava na cronologia, mas dia 11 já lá não estava. acontece, as redes sociais têm falhas que não são da culpa dos utilizadores, há publicações que inexplicavelmente desaparecem. pesquisando, no entanto, no álbum de fotos verifiquei que não estava de todo errado, quando encontrei, entre outras, a seguinte publicação de dia 5 de novembro:

pub logo cmm

ou seja, efectivamente no dia 5 de novembro, a “nova marca” já era divulgada na página do município.

4) 20 de novembro – reunião do executivo em que é apresentada uma informação do “Sr. Presidente da Câmara, datada de 17 de novembro de 2014, através da qual propõe que, no cumprimento do preceituado na Lei do Orçamento de Estado para 2014 (Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro), a Câmara Municipal emita parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de “Criação da Marca Institucional do Município da Murtosa”, que é aprovada com um único voto contra: o do vereador da oposição, Jorge Bacelar.

(a declaração de voto está anexa à acta nº23/2014, e é uma declaração amiga do executivo: alerta-o para uma situação de eventual “irregularidade”)

face ao exposto, ficam-me algumas dúvidas:

é impressão minha ou, legalmente, só depois de o executivo camarário ter aprovado, em 20 de novembro o parecer prévio favorável ao procedimento, é que o mesmo se podia ter iniciado?

será que não tem de haver uma aprovação da marca por parte do executivo? é que ainda não há nenhuma acta que o expresse

não será de questionar a regularidade de todo o procedimento que levou à concepção e utilização da “nova marca”?

aos atentos juristas e dirigentes políticos da terra fica a questão.

as aparências iludem

as aparências iludem

postais da ria (49) – andam por aí


a serenidade convida a pensar

a serenidade convida a pensar

conhecem os caminhos
por entre as pedras
que levam ao sol
rastejam
para

não têm destino próprio
serpenteiam ao sabor de

gosto deles quando se mostram
minúsculos esverdeados
espreitando se já
ou ainda não
esperam

esperam sempre
andam por aí

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(torreira; marina dos pescadores)

crónicas da xávega (31)


aguenta delmar, não largues o calão

aguenta delmar, não largues o calão

o abraço

desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua

chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até

escaldante como a areia
o pensar ser

morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente

o abraço

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(torreira; companha do marco; 2014)