renascer na ria
amo a limpidez
das manhãs
puras
manhãs minhas
claras belas
duras
renasço
(ria de aveiro; torreira; alar solheira)
falo de ti
admito que penses
sei que existes
e por isso deves
admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves
admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus
interesses
(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)
eis a questão
ser ou não ser
não é a questão
ambos são
fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão
faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo
o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser
eis a questão
(ria de aveiro; torreira)
os moliceiros têm vela (17)
voa meu barco voa
há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal
voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais
de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento
deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles
a palavra e o silêncio
um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça
as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem
amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje
herança amarga
a tua
(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)
era uma vez …… num país longe da murtosa
avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá
avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros
então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?
mostra-me uma foto de um moliceiro
tão lindo!
sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta
olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:
o moliceiro
avô, eu gosto muito de ti
mas ……
(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)
porque vai haver um amanhã