postais da ria (56)


falo de ti

os árduos caminhos do pão

os árduos caminhos do pão

admito que penses
sei que existes
e por isso deves

admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves

admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus

interesses

pesados os passos, perdidos

pesados os passos, perdidos

(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

postais da ria (54)


eis a questão

o silêncio da ria convida

o silêncio da ria convida

ser ou não ser
não é a questão
ambos são

fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão

faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo

o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser

eis a questão

a beleza da ria surpreende

a beleza da ria surpreende

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (17)


os moliceiros têm vela (17)

voa meu barco voa

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal

voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais

de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento

deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles

ahcravo_DSC_5881_sermar zé papa-lamas
(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

os moliceiros têm vela (15)


a palavra e o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça

as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem

amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje

herança amarga
a tua

a palavra enche o tempo e o espaço

a palavra enche o tempo e o espaço

(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)

os moliceiros têm vela (14)


era uma vez …… num país longe da murtosa

o a rendeiro a mostrar o que vale

o a rendeiro a mostrar o que vale

avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá

avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros

então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?

mostra-me uma foto de um moliceiro

tão lindo!

sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta

olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:

o moliceiro

avô, eu gosto muito de ti
mas ……

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)

porque vai haver um amanhã