salgam-se-me os olhos
de tanto olhar a ria
(ria de aveiro; torreira)
hora imprópria
(para o josé antónio pereira)
fotografar quando?
como?
porquê?
porque me provocaram
hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar
hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro
as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível
a fotografia
a possível
não me provoquem
(torreira, 3 de janeiro; 13h)
são tantos
vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram
vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram
lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia
são os rios desta terra
(torreira; regata do s. paio; 2014)
és tu
(a muitos amigos)
escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como
erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras
erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”
escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais
és tu
do ricardo para o josé
como está josé? não lhe escrevo por ser seu amigo, mas porque, de certo modo, somos parecidos: eu preparei o meu futuro – desculpe usar o inglês, mas a educação não se esquece e há apalavras que não consigo traduzir – offshore e você o seu, indoor. já reparou que você inaugurou as obras que agora o acolhem? somos homens de fazer, gostem ou não gostem. você não tem é, desculpe que lhe diga, uma família antiga atrás de si, além de se ter metido em coisa que nós, os que já cá andamos há muito, não metemos as mãos porque pagamos para que o façam: a política. porque é que você não foi para as finanças e quis ser engenheiro, político e depois filósofo e profeta (lembro-lhe que escreveu um livro sobre o que lhe está a acontecer), arranjou, como diz a gentinha, “lenha para se queimar”. tivesse vindo para as finanças e era rico, feliz e livre. olhe para nós, olhe para nós! ainda perguntei aos meus primos se conheciam a sua família ou o seu nome de algum lado, sabe qual foi a resposta que recebi de todos? só sei que nada sei. só uma nota, nós usamos os motoristas para distribuir bombons, o dinheiro é coisa demasiado perigosa para pôr nas mãos do povo, pelo menos em grandes quantidades. queria desejar-lhe um bom ano e pedir-lhe, por favor, quando sair, tenha ou não tenha razão, nisso não me meto, que atenda o meu telefonema, não se preocupe em saber como sei o número que vai ter, nós financeiros sabemos sempre tudo antes de acontecer. aproveite o tempo em que estiver à sombra para ler alguns manuais sobre funcionamento de mercados e bolsa e deixe-se de filosofias. já viu no que dá? até breve, por aí.
(praia da torreira; protecção da dunas)
como eu gosto deles
o seu lugar favorito
é a janela virada ao sol
atentos observam
de tudo bebem e se fazem
são
o repositório por excelência
rígido o corpo atento
olhos abertos
buscam a presa do dia
da janela registam
um deslize
um passo em falso
um quase erro
súbito saltam e
falo dos gatos
(torreira; regata do s. paio; setembro, 2012)
as mãos
regresso sempre às mãos
às mãos e ao peso
que sobre elas
tudo
ao pão suado salgado
sofrido esmifrado
aos braços ferramenta
aos escravos da fome
dos filhos do hoje
do manhã do nunca
do sonho
do desespero
da esperança
regresso sempre às mãos
nem sempre
vazias
(torreira; companha do marco; 2012)
dos amigos
sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem
uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto
atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber
joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti
há mais caminhos que pedras
(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)