os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)

crónicas da xávega (42)


e as mangas estendem-se pelo areal, vazias, sem braços por dentro

e as mangas estendem-se pelo areal, vazias, sem braços por dentro

dos meus

algures terá havido um começo
um instante inicial em que
não sei como nem porquê
o primeiro arribou

terá encontrado meios de vida
pão para a fome e tecto ergueu

desconheço-lhe o nome
como quase todos os que
fundas raízes buscam
na vã procura do início

ser hoje aqui
é sempre ser o primeiro
ou não ser
mais do que a continuação

recuso ser mais um
mesmo se
podendo ser o último

ahcravo_DSC_9393_mão de barca_marco 14
(torreira; companha do marco; 2014)

falo de ti, cuidavas que não?


estou-te a ver

estou-te a ver

há os que escrevem sobre
a história do que foi
e nada fazem
deixam livros

há os mais simples
os que fazem coisas
sobre as quais
os outros escreverão
deixam o nome

e tu
tu passas ao lado de ambos
e não és nada
nada

ouviste?

mais ao fundo já tu desapareceste

mais ao fundo já tu desapareceste

(dunas da torreira)

os moliceiros têm vela (34)


do medo

são moliceiros

são moliceiros

o medo é grande nas terras
piquenas
nas terras do tamanho das
gentes delas

o medo senta-se à mesa
do café
pede uma bica um copo
de água
o jornal da mesa do lado
se vago

o medo fuma um cigarro

o medo invadiu as casas
cegou muitos
paralisou alguns
calou quase todos
uns porque sim
outros porque também

o medo detém meios
oferece lugares
distribui subsídios
piquenos trabalhos
alguns favores
o medo é bom senhor

o medo passeia a gravata
pelas ruas no carro de serviço
o medo sorri pela janela
acena a quem passa
o medo é educado

o medo tem a sua corte
e o silêncio dos restantes

o medo inundou as ruas
transbordou para as praças

o medo
parou à porta do cemitério
porque depressa concluiu

que chegara tarde

os cisnes da ria num céu de sonho

os cisnes da ria num céu de sonho

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2014)

postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)

postais da ria (62)


gente da torreira

da ria, naturalmente

da ria, naturalmente

crescem com a ria
conhecem cedo o sal do pão
que comem

há um sorriso para a fotografia
há trabalho que se confunde com recreio
só vais para a ria se tiveres boas notas

não é trabalho infantil
é começar cedo a viver a ria
sem saber de amanhã

é a gente da torreira

ahcravo_DSC_1614_fim de dia

(torreira; marina dos pescadores)