manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (2)


manuel antónio pina (foto de alfredo cunha)

foto de alfredo cunha

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

de Cuidados Intensivos(1994)

maria teresa horta nas quintas de leitura


mth2

no passado dia 31 de janeiro, na biblioteca da figueira da foz, tive o prazer de estar entre os que puderam ouvir e sentir o ser de uma grande escritora.

desses momentos memoráveis ficaram os registos que se seguem.

espero que sintam neles o pulsar da vida e o prazer de a compartilhar

 

 

 

 

 

 

 

 

sobreviver na ria de aveiro


o peso do pão

o peso do pão

A sobrevivência dos pescadores da ria de Aveiro e, nomeadamente, do concelho da Murtosa, depende das seguintes capturas:

– enguia (cada vez mais escassa e, por isso mesmo, com cada vez menos pescadores a sobreviverem da sua pesca)

– choco, linguado, sável e lampreia (espécies sazonais e complementares, capturadas com artes de emalhar)

– bivalves (berbigão e amêijoa – de várias qualidades, sendo a predominante a “invasora”, denominada “japónica”. A apanha só é interrompida caso sejam detectadas nas águas microorganismos perigosos para a saúde humana e é feita recorrendo às seguintes arte legais: cabrita alta, cabrita baixa, à mão e em apneia com tubo.

A beleza das imagens registadas no vídeo é uma das maravilhas da ria, o espanto permanente dos que têm o privilégio de a conhecer perante a magnificência dos espectáculos que ela proporciona.

ahcravo

para ler com o vídeo de jorge bacelar

gente da ria


 

ahcravo_DSC_8322_japónica

 

 

seguem o
relógio
das marés
assim
se erguem

curvam-se
no lavrar
da lama
onde antes
areal

colhem
doridos
os frutos
nas mãos
garfos

gingam
as ancas
na dança
sofrida
do ser
aqui sempre
o regresso
de tanto
mar
de tanta
espera

são
a gente
da ria

 

para ler com o vídeo de Jorge Bacelar