cirandar amêijoa na torreira


 

joão magina e cipriano brandão a cirandar

joão magina e cipriano brandão a cirandar

 

cirandar

este documentário encerra a série dedicada à apanha de amêijoa na ria de aveiro, nomeadamente no canal de ovar em frente à vila da torreira.

para a apanha, e recordando, são utilizadas duas artes- cabrita alta e cabrita baixa – e a vulgar apanha à mão ou com uma pequena ferramenta (garfo).

a primeira selecção dos bivalves – em tamanho e género – decorre das próprias cabritas, que são diferentes consoante se pretende apanhar berbigão se amêijoa (as utilizadas na apanha da ameijoa têm dentes maiores).

depois de apanhadas as amêijoas são depositadas no fundo da bateira. terminada a maré, é necessário lavar e fazer uma segunda escolha tendo em conta o tamanho pretendido pelo comprador. esta operação é feita utilizando uma ciranda (ver no vídeo as variantes), que não é mais que uma “peneira”, de forma rectangular, cujo fundo é formado por varetas de ferro ou aço inox (as mais modernas) que joeira as amêijoas. há-as de madeira e de metal, para serem operadas por duas pessoas e, mais recentemente, as que são feitas a partir de caixas de plástico de embalar fruta, a que é aplicado no fundo uma grelha de aço inox, e que podem ser manobradas por uma só pessoa.

convém dizer que não são baratas, são feitas por encomenda e que as distâncias entre as varetas dependem do tamanho mínimo das ameijoas pedido pelo comprador.

depois de cirandar os bivalves apanhados, é ainda necessário fazer uma escolha manual, por causa dos diferentes tipos de amêijoa que foram apanhados. os preços de venda e as encomendas reportam sempre a uma determinada variedade.

o processo termina com a deposição das amêijoas em sacos de 10 kg, fornecidos pelo comprador, que são entregues nas zonas acordadas, nos dias e às horas ditadas pelo comprador, que é quem define tudo, a começar pelo preço.

 

o vídeo

 

maria toscano_da viagem das casas_lançamento


da esq p/ a drt: rui grácio, maria toscano, domingos lobo

da esq p/ a drt: rui grácio, maria toscano, domingos lobo

no passado dia 14 de março de 2013, na casa da escrita, em coimbra, maria toscano apresentou o seu primeiro livro de prosa ” da viagem das casas”, aqui fica o registo da intervenção, brevíssima, da autora.

nota biográfica
maria de fátima costa toscano

nasceu em campo maior em maio de 1963. é membro da ape. autora de poesia e prosa, em português desde 1973, editada em espanhol desde 2003, escreve em francês e inglês desde 2011. 7 livros de poesia publicados, 1 e-book e integra várias colectâneas de poesia.

estudou música, teatro e canto. em lisboa e coimbra criou cafés-concerto. canta fado, jazz e música clássica. nos anos 90 cria leituras encenadas sem a 4ª parede e críticas das técnicas de declamação.

em 2009, participa no iii festival internacional de poesia (Brasil, Dois Córregos), onde é poeta estrangeira convidada.

em 2010 realiza uma visita à argentina para divulgar a sua poesia escrita em espanhol em várias sessões de leitura organizadas pela SAPE e Poetas Argentinos (Buenos Aires, Iguazú…)

……..

texto lido no lançamento do livro “ da viagem das casas”:

“6. sobrados, tectos, saias e desafios

como os conheço… a estes guardas fiscais da fronteira herdados da ditadura, brutos na cama porcos à mesa em copos de tinto sempre a postos e secos, como os conheço bem
andam a par como que a medo, azul na parte de cima, mão no bolso ou na anca ou na coxa sobre a arma
vêm ao longe, olham-me em vão (os meus traços não lhe dizem nada), circundam-me circundam circulam como se feras ou cio de cães
como vos sei da cabeça aos pés todos empinados em casa os filhos brutinhos as filhas freirinhas no vosso pavor de algum como vocês se lhes chegar para genro, filhas de porcelana nem chegam a ser meninas
como vos sei vos abomino e vos domino sem sequer vos tocar
muito empinados nas frustrações de ter lá em casa uma esposa gorducha e despenteada, que se há-de fazer, um homem precisa de ter uma mãe até morrer… como poderia viver com chão janelas sujos a roupa suja e amarrotada, quem lhe faria a comida a cama os filhos os mimos e os caldos e chás dos resfriados, quem, enfim, quem o cuidaria? acobardados na tranquilidade do lar de onde então fazem, descansados, as saidinhas rápidas, tudo sob controle que não sou parvo!
chego a duvidar se são homens ou cães bem treinados cães de guarda cães de cio cães herdeiros da ditadura, sim, cães de cio num inverno eterno nunca domado
cofias o bigode que te enquadra, ceifas a paciência pelos bolsos de mãos no fundo a remexer a mexer a meter-me nojo ou apenas dó da tua miséria de só seres homem de calças baixas à mão mas com peúgas, como lembra o Jorge de Sena”

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o vídeo

miguel miranda apresenta “a paixão de k” em coimbra


 

miguel miranda

miguel miranda

 

Nascido no Porto em 1956, exercendo as funções de médico em Vila Nova de Gaia, é autor de uma obra ficcional já vasta e premiada em Portugal, que começa a projectar-se no estrangeiro (em 2006, o romance Dois Urubus Pregados no Céu foi traduzido em Itália) e a merecer, com justiça, a atenção da melhor crítica literária.

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação de Escritores de Gaia, da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e do Pen Clube Português, Miguel Miranda revelou-se na década de 90 com a colectânea Contos à Moda do Porto (1996), vencedora do Grande Prémio do Conto 1996 da APE, a que se seguiu o romance O Estranho Caso do Cadáver Sorridente (1998), agraciado com o Prémio Caminho de Literatura Policial 1997, ambos depois da menos conhecida obra de estreia, O Complexo de Sotavento (1992). Representado no Dicionário de Personalidades Portuenses de Século XX,publicado pela Porto Capital da Cultura 2001, e no Dicionário Literatura Portuguesa no Mundo, de Célia Vieira e Isabel Rio Novo, incluído em várias colectâneas de contos, Miguel Miranda tem vindo a publicar regularmente. Assim, constam da bibliografia do Autor: Caçadores de Sonhos (1996); Bailado de Sombras (1997); Livrai-vos do Mal (1999); A Mulher que Usava o Gato Enrolado ao Pescoço (2000); A Maldição do Louva-a-Deus (2001);Dois Urubus Pregados no Céu (2002); Princesa Voadora (incursão na literatura infantil, 2003); Como se Fosse o Último (2004); O Silêncio das Carpideiras (2005) e O Rei do Volfrâmio (2008).

Nesta obra considerável, que percorre os mais diversos géneros narrativos, Miguel Miranda retrata quase sempre um universo urbano, povoado de personagens tão estranhas e inesperadas quanto familiares e credíveis.

 

obras do autor

 

 

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http://www.portoeditora.pt/imprensa/noticia/ver/a-paixao-de-k-de-miguel-miranda?id=7342

 

A Paixão de K, de Miguel Miranda

 

Romance, caos e memória no novo livro do escritor portuense.

30.01.2013

 

A 4 de fevereiro, chega às livrarias nacionais o mais recente livro de Miguel Miranda, A Paixão de K, uma história de paixões, de encontros atribulados numa Londres incendiada por distúrbios, e das memórias que se apoderam dos que vivem longe da sua terra-natal. 


Num registo original, com humor e imaginação, Miguel Miranda leva-nos numa viagem envolvente que, desta vez, nos afasta da cidade do Porto, um dos cenários de eleição do autor.


Miguel Miranda celebrou recentemente os seus 20 anos de carreira literária e viu publicados dois dos seus livros em França pelas Editions de l’Aube. Um deles, 
Dai-lhes Senhor, o Eterno Repouso (2011), foi publicado pela Porto Editora, assim como Todas as Cores do Vento (2012).


O LIVRO


Além de perito em arte, Perfecto Cuadrado é um habilidoso falsário, que viaja pelo mundo desenhando rostos anónimos no metropolitano e colecionando mulheres belas e sedutoras. É um homem experimentado na arte de seduzir e de amar. Nada faria prever que se apaixonasse de forma eruptiva por uma mulher misteriosa com quem se cruzou no metro de Londres – Josephine K.


Para Perfecto Cuadrado, a vida é uma sucessão de planos, sendo o presente um refluxo do passado, excetuando dois acontecimentos súbitos: os distúrbios que incendeiam a cidade de Londres e a paixão que arde dentro dele.


A Paixão de K. é uma viagem à insensatez de todas as paixões.

 

o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (7)


manuel antónio pia, foto de sérgio granadeiro, edição bw de ahcravo

manuel antónio pina, foto de sérgio granadeiro, edição bw de ahcravo

 

de manuel antónio pina

 

Cuidados Intensivos

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido, no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos, os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes, os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros, as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

o último vídeo

BASTA!!!!!!


 

basta!!!!!!!!!!!!

basta!!!!!!!!!!!!

 

não nos queiram contar
fomos muitos
fomos indignação
protesto
fomos gerações
unidas massacradas
mas não vencidas

não nos queiram contar
fomos bastantes
revivemos o que pensávamos
já não
fomos ainda os mesmos
e muitos mais

isso te digo
cantámos e dissemos
basta!
basta!
ouviram?

estaremos cá
sempre
por nós
os que pela mão
ensinámos
a serem

estaremos cá
sempre
BASTA!

 

o vídeo

 

 

manuel antónio pina, na figueira da foz (6)


 

manuel antónio pina na revista sábado

manuel antónio pina na revista sábado

 

de manuel antónio pina

 

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

 

Do livro “Aquele que Quer Morrer”

 

o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (5)


 

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

do autor:

 
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
“Os gatos”, de Manuel António Pina

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

 

para ler com o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (4)


foto de lucília monteiro

foto de lucília monteiro

 

de manuel antónio pina

 

A um jovem poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

 

manuel antónio pina, figueira da foz 2012 (3)


foto de helder sequeira no correio da guarda

foto de helder sequeira no correio da guarda

de manuel antónio pina:

Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia