José Fanha na Lápis de Memórias, leitura do “Manifesto Anti Leitura”
no dia 4 de abril, na inauguração das novas instalações da Lápis de Memórias em Coimbra, José Fanha leu poemas da antologia editada pela livraria/editora/discoteca e deliciou-nos com alguns momentos de conversa e de leituras de textos seus.
publica-se hoje a leitura do “Manifesto Anti Leitura”, editado em 2012.
espero que gostem, porque mais virá que riquíssima foi a partilha.
seja este registo uma resposta à comunicação ao país que hoje tivemos de sofrer (7 de abril de 2013)
lemos os livros, ouvimos os autores, lemos outro livro: o autor
é esta a intenção dos despretensiosos registos, em termos estéticos, que aqui se vão sucedendo, e que têm o mero intuito de partilhar conversas, momentos únicos em que a vida enche os minutos e as horas passam no prazer de estar ali também.
espero que gostem, porque mais virão.
Aviso à navegação
(poema de Joaquim Namorado)
Alto lá!
Aviso à navegação!
Eu não morri:
Estou aqui
na ilha sem nome,
sem latitude nem longitude,
perdida nos mapas,
perdida no mar Tenebroso!
Sim, eu,
o perigo para a navegação!
o dos saques e das abordagens,
o capitão da fragata
cem vezes torpedeada,
cem vezes afundada,
mas sempre ressuscitada!
Eu que aportei
com os porões inundados,
as torres desmoronadas,
os mastros e os lemes quebrados
– mas aportei!
Aviso à navegação:
Não espereis de mim a paz!
Que quanto mais me afundo
maior é a minha ânsia de salvar-me!
Que quanto mais um golpe me decepa
maior é a minha força de lutar!
Não espereis de mim a paz!
Que na guerra
só conheço dois destinos:
ou vencer – ai dos vencidos! –
ou morrer sob os escombros
da luta que alevantei!
– (Foi jeito que me ficou
não me sei desinteressar
Não espereis de mim a paz,
aviso à navegação!
Não espereis de mim a paz
que vos não sei perdoar!
(Este poema de 1941 foi retirado da edição do Novo Cancioneiro da Caminho, de 1989, com prefácio, organização e notas de Alexandre Pinheiro Torres.)
roda a pedra
em sentido contrário
aos ponteiros do tempo
esmagando grãos de anos
no percorrer do caminho do pão
o homem reencontra as raízes
sorri aos dias da infância
revivida no aroma da farinha
Poema de ahcravo
um vídeo de Jorge Bacelar a que emprestei palavras
paridos do ventre
da terra
cresceram com os animais
o milho e as couves
são irmãos de todos
que a todos amam
os pés-raízes
bebem na mãe as forças
com que vencem
as surpresas adversas da natureza
e a perversidade do mundo
onde vigoram valores que lhes são estranhos
cansados desgastados
pelo tempo e a vida dura
acordam o dia e os galos da capoeira
que lhes matarão a fome em dias de festa
ou domingos de descanso por inventar
a terra os viu nascer
a terra os virá colher
a terra-mãe
a terra-mulher
Poema de ahcravo
vídeo 1
“7 de Abril
Não, disse o meu irmão.Quem põe ovos de chocolate são os coelhos da Páscoa, não são as galinhas de chocolate.
Evidentemente.
10 de Abril
No circo, ficamos a saber que os coelhos nascem de chapéus.
E não de ovos”
in “O Livro do Ano”
vídeo 2
do autor
“4 de Maio
Hoje, um homem aproximou-se de mim.Vestia fato e usava gravata, mas eu reconheci-o de imediato.
Era um homem do Instituto. Estava disfarçado de pessoa normal.
Perguntou-me as horas e eu disse: Tenho dois trovões dentro de um envelope dos correios. O da esquerda é de madeira e o do meio é fêmea.É assim que nascem as cartas.
Ele, surpreendido com a minha resposta, foi-se embora e não me internou.
Mas, por via das dúvidas, fui para casa com os sapatos calçados nas mãos”
in “O Livro do Ano”
vídeo 3
do autor
“5 de Julho
Tenho pena das pedras, sempre tão duras.
As pedras grandes gostam de aparecer em postais.
E as pedras pequenas gostam de aparecer em sapatos”
in “O Livro do Ano”
vídeo 4
do autor
“27 de Setembro
Caiu uma folha de um livro. Já é Outono
3 de Dezembro
O meu avô diz que a felicidade é uma péssima corredora e que é fácil fugirmos dela.
E a tristeza?, perguntei
É uma excelente corredora, respondeu ele”
in “O Livro do Ano”
no dia 20 de março de 2013, o multifacetado criador afonso cruz esteve em coimbra, na lápis de memórias, para apresentar os seus mais recentes livros: “o livro do ano” e ” enciclopédia da estória universal_arquivos de dresner”.
Afonso Cruz
Nasceu, em Julho de 1971, na Figueira da Foz e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de 60 países. Frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Em 2008, publicou o seu primeiro romance, A Carne de Deus — Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites, ao qual se seguiria, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Em 2011, publicou Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho, Prémio Literário Maria Rosa Colaço) e A Contradição Humana (Caminho, prémio Autores SPA/RTP). Em 2012, foi o autor português distinguido com o Prémio da União Europeia para a literatura pelo livro A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010). Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara, 2012) foi considerado o Livro Português do Ano pela revista Time Out Lisboa e o Melhor Livro do Ano segundo os leitores do jornal Público. Foi eleito, pelo jornal Expresso, como um dos 40 talentos que vão dar que falar no futuro. Os seus livros mais recentes são Enciclopédia da Estória Universal — Arquivos de Dresner eO Livro do Ano, ambos publicados pela Alfaguara, em 2013. Assina, desde fevereiro de 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, sob o título Paralaxe.Além de escrever, é ilustrador, realizador de filmes de animação e membro da banda.The Soaked Lamb.
(fonte bookoffice)
do autor
“Política
Os animais não falam.
Mas alguns deles discursam”
in Enciclopédia da Estória Universal, Arquivos de Dresner
“10 de Maio
Estive a ver uma planta a furar a terra…
As plantas procuram a luz como as traças e os filósofos”
in O Livro do Ano
publica-se em seguida o primeiro de uma série de vídeos da apresentação
cirandar
este documentário encerra a série dedicada à apanha de amêijoa na ria de aveiro, nomeadamente no canal de ovar em frente à vila da torreira.
para a apanha, e recordando, são utilizadas duas artes- cabrita alta e cabrita baixa – e a vulgar apanha à mão ou com uma pequena ferramenta (garfo).
a primeira selecção dos bivalves – em tamanho e género – decorre das próprias cabritas, que são diferentes consoante se pretende apanhar berbigão se amêijoa (as utilizadas na apanha da ameijoa têm dentes maiores).
depois de apanhadas as amêijoas são depositadas no fundo da bateira. terminada a maré, é necessário lavar e fazer uma segunda escolha tendo em conta o tamanho pretendido pelo comprador. esta operação é feita utilizando uma ciranda (ver no vídeo as variantes), que não é mais que uma “peneira”, de forma rectangular, cujo fundo é formado por varetas de ferro ou aço inox (as mais modernas) que joeira as amêijoas. há-as de madeira e de metal, para serem operadas por duas pessoas e, mais recentemente, as que são feitas a partir de caixas de plástico de embalar fruta, a que é aplicado no fundo uma grelha de aço inox, e que podem ser manobradas por uma só pessoa.
convém dizer que não são baratas, são feitas por encomenda e que as distâncias entre as varetas dependem do tamanho mínimo das ameijoas pedido pelo comprador.
depois de cirandar os bivalves apanhados, é ainda necessário fazer uma escolha manual, por causa dos diferentes tipos de amêijoa que foram apanhados. os preços de venda e as encomendas reportam sempre a uma determinada variedade.
o processo termina com a deposição das amêijoas em sacos de 10 kg, fornecidos pelo comprador, que são entregues nas zonas acordadas, nos dias e às horas ditadas pelo comprador, que é quem define tudo, a começar pelo preço.
o vídeo