quando eu chegar
quando eu chegar
que seja num dia de sol
com cheiro a maresia
trago sede de sal
fome de navegar
vim para ser aqui
haja barco que me leve
possa eu embarcar
trago sede de sal
fome muita de mar
(torreira; companha do marco; 2014)
as mãos
regresso sempre às mãos
às mãos e ao peso
que sobre elas
tudo
ao pão suado salgado
sofrido esmifrado
aos braços ferramenta
aos escravos da fome
dos filhos do hoje
do manhã do nunca
do sonho
do desespero
da esperança
regresso sempre às mãos
nem sempre
vazias
(torreira; companha do marco; 2012)
quantos homens são
um homem?
não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda
enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem
quando deixa de o ser?
(torreira; companha do marco; 2012)
o abraço
desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua
chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até
escaldante como a areia
o pensar ser
morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente
o abraço
(torreira; companha do marco; 2014)