crónicas da xávega (39)


quando eu chegar

é tempo de mar

é tempo de mar

quando eu chegar
que seja num dia de sol
com cheiro a maresia

trago sede de sal
fome de navegar

vim para ser aqui
haja barco que me leve
possa eu embarcar

trago sede de sal
fome muita de mar

e todos ficaram encharcados

e todos ficaram encharcados

(torreira; companha do marco; 2014)

crónicas da xávega (38)


as mãos

a saco aproxima-se da praia, os bordões apertam as mangas. quem sabe se peixe?

a saco aproxima-se da praia, os bordões apertam as mangas. quem sabe se peixe?

regresso sempre às mãos
às mãos e ao peso
que sobre elas
tudo

ao pão suado salgado
sofrido esmifrado

aos braços ferramenta
aos escravos da fome
dos filhos do hoje
do manhã do nunca
do sonho
do desespero
da esperança

regresso sempre às mãos
nem sempre
vazias

as cores da esperança, do esforço, do salgado suor dos homens do mar

as cores da esperança, do esforço, do salgado suor dos homens do mar

(torreira; companha do marco; 2012)

crónicas da xávega (34) – um homem


de que massa és feito, massa?

de que massa és feito, massa?

quantos homens são
um homem?

não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda

enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem

quando deixa de o ser?

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

(torreira; companha do marco; 2012)

crónicas da xávega (31)


aguenta delmar, não largues o calão

aguenta delmar, não largues o calão

o abraço

desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua

chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até

escaldante como a areia
o pensar ser

morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente

o abraço

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(torreira; companha do marco; 2014)