a céu está encostada à roda de um dos tractores grandes que o marco usa na companha. fácil é, com este enquadramento, imaginar a sua dimensão.
para andar na areia, os pneus são cheios com 90% de água e 10% ar.
(torreira; companha do marco; 2011)
o barco entra agora no mar, apoiado numa estrutura rígida, as 2 muletas fixas nas cápsulas metálicas, e deixou de ser necessária a regeira.
note-se que, pela mão do arrais, começa a sair o reçoeiro e, ao fundo, a rebentação no “cabeço” – praia, lago, cabeço.
(torreira; companha do marco; 2011)
faz-se a memória
do ser e do sentir
do estar e do ter estado
do querer e do saber
todo o dia será memória
se memória do dia se fizer
és o que foste
serás o que és
em ti nada começa
e nada acaba
és apenas tu
nunca apenas foi tanto
contamos contigo
para continuarmos a ser
mais que memória lembrada
a vivida sentida sabida
vida
(torreira, no tempo dos bois, a memória aqui)
já tinha dito noutra publicação que uma das inovações da companha do marco em 2011, tinha sido o novo desenho da muleta.
tradicionalmente a muleta era uma vara única que se apoiava numa peça de metal fixa na ré do barco. na praia de mira, os tractores têm uma peça metálica, em forma de “V” que encaixa na ré do barco abraçando-a, noutras praias o barco vai ao mar em cima de uma plataforma com rodas que vai pela areia empurrada por um tractor e entra no mar, largando o barco.
o marco criou um sistema de muleta composto por duas varas, que entram numas cápsulas de metal colocadas lateralmente na ré do barco e no tractor.
com este sistema o barco entra a direito no mar, sem necessidade de regeira e é muito mais seguro.
neste registo, vê-se o encaixar das muletas nas cápsulas de metal.
(torreira; companha do marco; 2011)
é tempo de gestos
de dizer fazendo
de ser o que negado foi
calar é consentir
afirmar-se é negar
recusar é querer
ergue-te
maior que tu só tu
ninguém tem o direito de te apoucar
cresce para que cresçam os que de ti
o tempo dos teus será o que lhes deixares
são estes os homens que descendem
dos que foram a longes terras e regressaram
os mais descendem dos que nunca partiram
de quem descendes tu
se não fores a recusa
e o afirmares bem alto
de pé?
(praia de mira; companha do zé monteiro)
toda a rede está no mar, a mão de barca corre por sobre o bordão e o barco regressa a terra. mantém-se a atenção no sair da corda, cuidando de que não haja nós ou embaraçamento de rolo.
entretanto, não há descanso a bordo, o agostinho e o ti américo vão escoando o barco da água que entretanto entrou. o agostinho com um balde, o ti américo com o mais vulgar escoador, ou vertedouro, uma embalagem de plástico de 5 litros de lixívia, devidamente cortada e adaptada.
repare-se no facto de o remo se encontrar bem preso, para não perturbar o andamento do barco: uma corda por cima do cágado e outra a amarrá-lo ao banco.
a velocidade é de novo grande. a rede foi largada onde pretendido e chegar a terra é agora a manobra mais delicada: o surf do arribar.
(torreira; companha do marco; 2011)
a rede já está quase toda no mar. vê-se, na metade da ré do casco, o que falta da manga da mão de barca e na parte da proa, a própria mão de barca (junto à base da fotografia)
de costas, o horácio segura o arinque do calão da mão de barca, para o lançar ao mar ao mesmo tempo que o calão.
o barco está muito mais leve e quase pousa no mar
(torreira; companha do marco; 2011)
é tempo
é sempre tempo
de fazer
agarra o sonho
ele só existe porque tu
desistir é matá-lo
é morreres sem teres sido
não esperes a mão que te prometeram
sê as mãos que tens
com elas faz e faz-te
tu és o sonho a querer ser coisa de tocar
ergue-te
de pé
diz bem alto
hoje aqui agora
sou e quero que sejam
o saco já está no mar (vê-se a cortiçada colorida à rectaguarda da bica da ré), o arinque do saco, a calima, também (é vermelha e está no mar, ligeiramente à direita da cabeça do pescador de azul). a manga da mão de barca sai por bombordo.
aproveite-se este momento para distinguir os dois modos de fazer um lanço:
– mão acima: o barco entra no mar em direcção ao sul, a rede sai por estibordo e o lanço é feito no sentido sul/norte
– mão abaixo: o barco sai em direcção a norte, a rede sai por bombordo, e o lanço é feito na direcção norte/sul
o lanço que estamos a acompanhar é um lanço “mão abaixo”
o que define de modo simples, se quisermos, o tipo de lanço, é a direcção tomada pelo largar da rede.
para estas caracterizações socorri-me dos meus mestres e amigos arrais: joão calada e marco silva.
na ria as orientações são similares : norte-cima; sul-baixo, nascente-serra e poente-mar.
(torreira; companha do marco; 2011)
este registo é a cores, porque só assim se conseguem visualizar, com mais nitidez, os detalhes de tudo o que se está a passar.
o saco já foi largado e vê-se, à tona da água, a cortiçada de cores variadas, distingue-se ainda à esquerda do meio da cortiçada, o saco, e ao fundo, à direita, o arinque do reçoeiro.
começa agora a ser largada a manga da mão de barca.
repare-se mais uma vez na atenção de toda a companha ao largar da rede.
(torreira; companha do marco; 2011)