carta a quem


 

 

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

 

 
não
não me quero
à sombra dos ciprestes
no subterrâneo rumor dos vermes
sob flores de plástico

deixem-me ser
ainda que por breves instantes
espuma no bramido das ondas
abraçar uma última vez o mar que tanto amei

não manuel
não quero ir de burro
mas de barco

deixem-me
desejar onde estarei
quando já não for

 

(torreira; companha do marco; 2013)

ir ao mar com o marco (8)


 

a manga do reçoeiro vai sendo largada, segue-se o saco

a manga do reçoeiro vai sendo largada, segue-se o saco

 
larga-se a manga do reçoeiro, o agostinho tem por debaixo dele o saco que será lançado a seguir

repare-se, de novo, na atenção de toda a companha ao acto de largar. uma rede que não seja largada como deve ser pode comprometer todo o lanço

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (7)


 

e o arinque do calão do reçoeiro é lançando ao mar

e o arinque do calão do reçoeiro é lançando ao mar

 
presa ao calão, a bóia (arinque) que o sinaliza, vê-se na água, encostada ao limite lateral direito do registo.

a manga começa a ser largada. o agostinho segura no bordão, com os olhos postos na rede, não haja qualquer “embrulhanço” que atrase tudo. toda a companha olha para o mar, acompanhando o largar da rede.

quando falei, na foto anterior da necessidade de fazer o lanço o mais longe possível, fixou por dizer – falta de espaço – o seguinte:

convém lembrar aqui que as capitanias regulamentam e fixam, no início de cada safra as coordenadas entre as quais uma companha pode pescar, isto para evitar conflitos entre companhas vizinhas e proximidades a zonas balneares.

a distância da costa a que as pequenas motoras podem pescar, também se encontra definida legalmente. apesar disso não é anormal, antes pelo contrário, que elas venham arrastar a distância da costa inferior à legal e chegando mesmo a entrar nas zonas definidas para a xávega, estando um lanço a decorrer.

não é pois só da sorte que depende o peixe apanhado pelas redes da xávega, depende também das infracções feitas pelos arrastos costeiros das motoras, as quais, a maioria das vezes, as autoridades marítimas, mesmo se chamadas, raramente chegam a tempo e com meios para autuar.

fazer o lanço onde o melhor já foi apanhado ilegalmente é muitas vezes o que acontece na xávega.
(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (6)


 

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

 

largados já foram todas os rolos do reçoeiro, chegámos ao local definido pelo arrais para fazer o lanço. para tentar a sorte, para tentar ser ouvido por deus nas preces que fez ao largar.

a distância da costa a que se faz o lanço depende da “intuição” do arrais, ou do resultado de lanços anteriores da companha ou de outras vizinhas.

é claro que quanto mais longe da costa forem lançadas as redes, mais área é “varrida”, maior a probabilidade de um cardume ser apanhado, de  mais peixe “vir” na rede. mas, e isto é muito importante, quando se trata de pesca artesanal, é a sorte que decide. de outros factores falarei noutro momento.

o calão da manga do reçoeiro vai ser lançado ao mar, repare-se na função de “passadiço encaminhador” desempenhada por um bordão, que um camarada segura e se apoia numa furação feita na beirada do barco.

tudo agora é lento, preciso, o motor quase parado, o silêncio é interrompido somente por algum reparo do arrais no largar das redes.

este é, para mim, o momento que justifica o ter vindo. a sensação de não estar em lado nenhum e em toda a parte, é agora.
(torreira; companha do marco;2011)

ir ao mar com o marco (5)


 

 

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

vamos agora mar adentro, o reçoeiro corre por bombordo, pelo bordão que o ampara para que não se fira e siga sem nós.

 

vêem-se os rolos de corda do reçoeiro, na metade da ré do barco, por baixo dos quais estão as mangas.

 

note-se que o barco está na perpendicular à praia e na direcção do tractor que ala o reçoeiro.

 

cada vez mais longe da praia, mais perto do silêncio e, quem sabe, de algum cardume de carapau que encha o saco.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (4)


 

o reçoeiro laçado na bica da ré

o reçoeiro laçado na bica da ré

 

no registo anterior mostrava-se o reçoeiro com uma volta dada no escalamão de estibordo, para ficar preso enquanto o barco navega paralelo à costa.

neste registo, feito noutra ida ao mar, o arrais marco deu, na bica da ré, uma volta ao reçoeiro, para o prender. esta é a prática mais habitual.

o mesmo processo é utilizado no arribar do barco, só que agora a cala (corda) é a mão de barca, prendendo-a ou largando-a o arrais controla a aproximação do barco da praia, esperando boas ondas que, ao jeito do surf, o levam até à areia.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (3)


rumo ao norte

rumo ao norte

continuamos a navegar para norte, paralelos à praia. o reçoeiro vai amarrado com nó simples no escalamão de estibordo  e faz um arco, bem visível no mar.

na praia, o tractor do reçoeiro corre pela areia, arrastando a zorra com o pessoal do reçoeiro.

acompanha o barco até ele virar para poente, mar adentro.

começa depois a alar o reçoeiro e mantém-no tenso durante todo o processo de alagem.

a companha de mar está a postos e a uma ordem do arrais, que vai ao motor, lá iremos.

 
(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com marco (2)


o horácio a ler o mar

o horácio a ler o mar

 

 

à minha frente o horácio, a quem ao princípio apelidei de filósofo sem lhe saber o nome, olha o mar.

olha e vê, adivinha o onde, pensa o como. ele é o homem mais à proa, dele podem ser algumas indicações para quando o barco se fizer ao largo.

caminhamos, se assim se pode dizer, paralelamente à praia e em direcção ao norte, largar a rede a norte, deixar que ela venha para sul com a corrente dominante e fazer com que o saco chegue a terra no mesmo sítio de onde o barco partiu e tudo estará a postos.

essa a arte da arte

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (1)


 

 

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

 

quando o mar permite e o arrais consente, lá vai o fotógrafo dentro do barco, sentir o silêncio do mar e documentar o fazer do lanço.

neste registo pode-se ver que o barco navega paralelo à costa, em direcção a norte, procurando uma boa entrada.

pela bica da ré, o vitó vai controlando a primeira corda do reçoeiro que, neste caso é mais fina que os restantes rolos – não vai ser necessária para alar o aparelho, destina-se somente a permitir que o barco faça a entrada mais a norte. depois é recolhida e enrolada separadamente.

o mar estava calmo, por isso me deixaram ir, por isso fui. que fotografar pancadas de mar, de terra, é uma coisa, levar com elas em cima …não é conveniente, nem o arrais pode correr esse risco.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

 

2011, um ano inovador para a xávega na torreira


 

um saco a secar e outro na zorra. sempre prontos

um saco a secar e outro na zorra. sempre prontos

 

2011 é um ano que serve de referência a qualquer história da prática da xávega na torreira, e que passa sem margem de dúvida pelas alterações introduzidas na companha do marco.

1. composição da companha

tradicionalmente as companhas da torreira eram compostas por gente da terra (marco e zé murta) ou de ovar (pepolim).

nas companhas da torreira, os homens oscilam entre a ria e o mar, consoante o que estiver a dar mais ganho. sendo o mar incerto, por feitio, e a ria incerta conforme o tipo de pescaria disponível e as interdições.

não é por isso fácil, manter uma companha pronta a trabalhar sempre que o mar permite. nem sempre o pessoal arrisca um dia no mar, quando na ria há ganho garantido.

em 2011, o marco decidiu ir buscar pescadores a cortegaça e a esmoriz, que se juntaram aos membros da companha que, sendo da torreira, só se dedicavam à xávega, no tempo da safra. a forma como foi constituída a companha em 2011, é inovadora em relação ao tradicional da torreira.

2. a muleta

também neste aspecto o marco inovou. em lugar da muleta tradicional, de uma só vara, ou de optar por uma muleta em metal em forma de “V”, como na praia de mira, adoptou um sistema, da sua autoria, que é constituído por duas varas de madeira, com extremidades adaptadas para encaixar em “cápsulas” fixas a bombordo e a estibordo, na metade traseira do barco e ao tractor. delas falarei em detalhe noutra altura

 

(torreira; companha do marco; 2011)