
nada é mais do que
o ínfimo instante
entre o ser e o não
suspenso do olhar
nada sou para além
do ser agora só
bastar-me-ei até
ao quebrar de mim
saber quando
à porta do mar
não se bate
nem se pergunta
se se pode entrar
entra quem sabe
porta dentro
a casa invade
toma por suas
janelas e paredes
haver dentro delas
pão que fará sorrir
quem em torno da mesa
é motivo que baste
para que o arrais grite
bota!
(torreira; companha do marco; 2010)
não se desfazem os nós
que o mar fez
entrelaçaram-se as vidas
enquanto o forem
tempo houver
os que chegam
chegaram há muito
eram outros
quando
lembro-me de miúdos
a gatinhar da areia
os que partem
não partem nunca
afastam-se apenas
para serem o outro
o que foram
na memória contada
à mesa dos dias
onde entre dois copos
recrescem nas palavras
não se despedem nunca
marcam encontro onde
(torreira; companha do marco; 2010)

a carregar a rede para zorra está o joão bastos ajudado pelo carlos tavares, o alfredo amaral faz uma pausa
poderia ser esta uma definição das gentes da torreira: da ria ao mar, do mar à ria, de portugal para outros mares, outras terras.
gente de andar, mestres em barcos de pesca longínqua, em frotas de outras países, emigrantes onde o trabalho compensa, os pescadores da torreira quando regressam a férias, só conhecem um caminho: aquele onde passaram os melhores e piores da sua vida, no mar a trabalhar na xávega.
o tempo passa salgado
(torreira; companha do marco; 2010)
o tempo de estar aqui convosco, em 2010, está a chegar ao fim.
a safra continuará até que o mar deixe
as imagens ficarão por mais tempo. a memória vai-se fazendo.
estamos quase a deixar que a geografia nos separe.
levar-vos-ei e sei que fico.
uma poucas mais e….
(torreira; companha do marco; 2010)
hoje 25 de abril de 2014, 40 anos depois do dia da revolução dos cravos, quero dedicar esta foto a todos os que sempre souberam trabalhar em conjunto: as companhas deste país, sejam de mar, sejam do campo.
não tenho quaisquer pretensões como fotógrafo ou como escrevedor de coisas, mas tenho uma ambição que ao longo dos anos espero ter vindo a cumprir, a divulgação da xávega e daqueles que a ela se dedicam.
com eles alguns dos melhores momentos da minha vida, entre eles as minhas raízes, por eles estas fotos, estes conhecimentos que tenho procurado transmitir, os rostos levados pela net às famílias emigradas.
por isso, espero que tenha vindo com a qualidade mínima do meu trabalho – para uns talvez demasiado repetitivo -, a prestar-lhes a merecida homenagem e dar a conhecer a um outro público o seu labor.
para o que sei contribuíram pescadores da praia da torreira, com os seus conhecimentos da arte, que se mostraram sempre dispostos a identificar os pescadores que constavam das fotos e me permitem ir construindo uma galeria de rostos com nome.
porque escrevo isto hoje? porque me apeteceu e para que conste
(torreira; companha do marco; 2010)
está a acabar a minha safra fotográfica do ano de 2010, os momentos aproximam-se do fim. foram muitos, mas este é um dos que mais me toca.
o nicole veio da ucrânia em busca do oiro português, como muitos seus compatriotas trabalhou nas construção civil, sem contrato, sem horário, sem condições.
até que um dia, os músculos cederam ao martelo compressor e o braço ficou incapaz de contribuir para a sua subsistência na construção civil.
veio para a torreira onde, dizia ele, tinha encontrado entre os pescadores uma nova família. vi-o sempre bem disposto porque era verão.
2010 foi o seu último ano em portugal, regressou à ucrânia e pouco tempo depois morreu.
entre nós ficaram laços de amizade selados pelo mar e seus frutos.
por mais que fale do nicole, nunca digo tudo, porque nunca sou capaz de me despedir dele, continua a sorrir e a estar aqui.
(torreira; companha do marco; 2010)