ir ao mar com marco (10)


 

 

já a manga de mão da barca corre para o mar

já a manga de mão da barca corre para o mar

o saco já está no mar (vê-se a cortiçada colorida à rectaguarda da bica da ré), o arinque do saco, a calima, também (é vermelha e está no mar, ligeiramente à direita da cabeça do pescador de azul). a manga da mão de barca sai por bombordo.

aproveite-se este momento para distinguir os dois modos de fazer um lanço:

– mão acima:  o barco entra no mar em direcção ao sul, a rede sai por estibordo e o lanço é feito no sentido sul/norte

– mão abaixo: o barco sai em direcção a norte, a rede sai por bombordo, e o lanço é feito na direcção norte/sul

o lanço que estamos a acompanhar é um lanço “mão abaixo”

o que define de modo simples, se quisermos, o tipo de lanço, é a direcção tomada pelo largar da rede.

para estas caracterizações socorri-me dos meus mestres e amigos arrais: joão calada e marco silva.

na ria as orientações são similares : norte-cima; sul-baixo, nascente-serra e poente-mar.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

por vezes toco a beleza


de tudo me fica
a tentativa vã
de querer ir mais fundo
à raiz das coisas
onde mora a memória
a casa se iniciou

sou apenas um que tentou
mais um que

semeio palavras e imagens
sonhos e amarguras
tempo a esmo
de histórias começadas e
nunca acabadas

acabarei
a boiar algures numa laguna
de tempo sem tempo
onde não serei
sequer coisa digna de se ver

olho a ria e admiro a beleza
das pequenas coisas
reencontrando nelas o imenso
do que vou perder

será sempre assim

(murtosa; cais do chegado)

ir ao mar com o marco (9)


 

 

já vai o saco na água e começa a ser largada a manga da mão de barca

já vai o saco na água e começa a ser largada a manga da mão de barca

 

este registo é a cores, porque só assim se conseguem visualizar, com mais nitidez, os detalhes de tudo o que se está a passar.

o saco já foi largado e vê-se, à tona da água, a cortiçada de cores variadas, distingue-se ainda à esquerda do meio da cortiçada, o saco, e ao fundo, à direita, o arinque do reçoeiro.

começa agora a ser largada a manga da mão de barca.

repare-se mais uma vez na atenção de toda a companha ao largar da rede.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

demora-te


 

 

 

ribeira da arei, veiros

ribeira da arei, veiros

demora-te
onde os olhos te falarem
com palavras por inventar

silêncios guardados há muito
esperam-te como se desde sempre
por ti ali para ti

0 tempo
o tempo que levaste a aqui chegar
foi o necessário para que fosses tu

escuta-te e depois parte
estiveste aqui e foste de novo
o segredo revelá-lo-ás a quem

és outro
(ria de aveiro; ribeira da areia; veiros)

basilius na feira medieval de penela (1)


 

uma figura, um artista, um projecto

uma figura, um artista, um projecto

 

 

Joaquim Vieira Basílio, também conhecido por “Mendigo Basilius”, nasceu a 15 de Abril de 1936, na freguesia de Ceira, em Coimbra.

Com uma grande paixão pelo teatro e pela poesia, desde cedo se iniciou nestas andanças, levando a todo o país a sua presença.

Com uma enorme presença cultural na região de Coimbra destacam-se as suas participações no Grupo Cénico da Casa do Povo de Ceira, de 1959 a 1965; no Grupo de Teatro de Sobral de Ceira, de 1975 a 1996; e na Cooperativa de Teatro Bonifrates, onde ingressou em 1997. Foi co-fundador do Grupo de Intervenção Poética e Animação Cultural “Os Sem Abrigo”.

Pedinte Medieval

Esta personagem conta já com 20 anos de existência, tendo nascido em 1992, aquando da I Feira Medieval de Coimbra. Daí até ao dia de hoje já esteve presente em centenas de feiras medievais ao longo do País, destacando-se Castro Marim, Guimarães, Montemor-o-Velho; Canas de Senhorim, Penela, Coimbra, Silves, Braga. Santa Maria da Feira, Óbidos e muitos outros eventos.

Com reconhecimento no estrangeiro, já participou em eventos pela Europa fora, com especial presença em Espanha e em Itália onde é muito querido.

Durante os anos 90 deu corpo a outra personagem “O Cego”, na Romaria do Senhor da Serra em Coimbra.

Com participação em outras actividades culturais, destacam-se as suas narrações e declamações de poemas. É também de salientar a sua presença no Grupo de Intervenção Poética e de Animação Cultural “Os Sem Abrigo”, que levou por toda a região centro do País, em inúmeras actuações.

(informação retirada de um desdobrável que me foi oferecido pelo Basilius)

 

carta a quem


 

 

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

maria de fátima, nele se depois de mim irei ao mar

 

 
não
não me quero
à sombra dos ciprestes
no subterrâneo rumor dos vermes
sob flores de plástico

deixem-me ser
ainda que por breves instantes
espuma no bramido das ondas
abraçar uma última vez o mar que tanto amei

não manuel
não quero ir de burro
mas de barco

deixem-me
desejar onde estarei
quando já não for

 

(torreira; companha do marco; 2013)

ir ao mar com o marco (8)


 

a manga do reçoeiro vai sendo largada, segue-se o saco

a manga do reçoeiro vai sendo largada, segue-se o saco

 
larga-se a manga do reçoeiro, o agostinho tem por debaixo dele o saco que será lançado a seguir

repare-se, de novo, na atenção de toda a companha ao acto de largar. uma rede que não seja largada como deve ser pode comprometer todo o lanço

 

(torreira; companha do marco; 2011)

procuro viver


 

 

algures no meio da ria com o salvador rilho

algures no meio da ria com o salvador rilho

quisera
ser o que conta
memórias minhas feitas tuas
do ter acontecido
e eu

caminho por onde
caminhos faço
efémero é ser eu aqui
e tu sempre
que é teu o devir
e o que para ti deixo

sou o que anda
e nada deixa
porque não fica

eu não existo
procuro viver