ir ao mar com o marco (3)


rumo ao norte

rumo ao norte

continuamos a navegar para norte, paralelos à praia. o reçoeiro vai amarrado com nó simples no escalamão de estibordo  e faz um arco, bem visível no mar.

na praia, o tractor do reçoeiro corre pela areia, arrastando a zorra com o pessoal do reçoeiro.

acompanha o barco até ele virar para poente, mar adentro.

começa depois a alar o reçoeiro e mantém-no tenso durante todo o processo de alagem.

a companha de mar está a postos e a uma ordem do arrais, que vai ao motor, lá iremos.

 
(torreira; companha do marco; 2011)

saída limpa


 

 

um depósito inovador

um depósito inovador

 

souberam dele porque
sabem de todos os que lhes interessam
os números somam-se nas máquinas
onde todos somos mais um
menos um
conforme as existências e as necessidades
estatísticas de interesses

depois de ter sido despojado de tudo
o que pensava ter ainda para viver
depois de tantos anos a dar para receber
recebeu a nova de que não ia receber o que
que apesar de trabalhar mais
iria ganhar menos
que mau grado os sacrifícios
o mínimo era o que lhe pagavam se ficasse

antes de partir
não perdeu tempo
em três sacos negros como os tempos
que se avizinhavam
juntou o que tinha e foi depositá-lo no banco
mais próximo
afinal era nos bancos que tudo começava e acabava

lixo depositou
afinal
nada mais quis que
uma saída limpa

ir ao mar com marco (2)


o horácio a ler o mar

o horácio a ler o mar

 

 

à minha frente o horácio, a quem ao princípio apelidei de filósofo sem lhe saber o nome, olha o mar.

olha e vê, adivinha o onde, pensa o como. ele é o homem mais à proa, dele podem ser algumas indicações para quando o barco se fizer ao largo.

caminhamos, se assim se pode dizer, paralelamente à praia e em direcção ao norte, largar a rede a norte, deixar que ela venha para sul com a corrente dominante e fazer com que o saco chegue a terra no mesmo sítio de onde o barco partiu e tudo estará a postos.

essa a arte da arte

 

(torreira; companha do marco; 2011)

confissão


deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

chega o dia em que conjugar
os verbos no pretérito
é forma quotidiana de
falar dos dias
somos mais o que fomos do
que o que pensamos vir a ser

somos porque fomos
e no que fomos o termos sido
seja um sorriso hoje
a saudade não cabe no tempo contado
cabe no tempo a descontar
por não haver tanto quanto houve

caminho cansado por vezes
mas com os bolsos cheios de dias
distribuo sorrisos quando digo de mim
histórias que podem parecer inventadas
mas que como eu

estão vivas

deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

(ria de aveiro; torreira)

ir ao mar com o marco (1)


 

 

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

 

quando o mar permite e o arrais consente, lá vai o fotógrafo dentro do barco, sentir o silêncio do mar e documentar o fazer do lanço.

neste registo pode-se ver que o barco navega paralelo à costa, em direcção a norte, procurando uma boa entrada.

pela bica da ré, o vitó vai controlando a primeira corda do reçoeiro que, neste caso é mais fina que os restantes rolos – não vai ser necessária para alar o aparelho, destina-se somente a permitir que o barco faça a entrada mais a norte. depois é recolhida e enrolada separadamente.

o mar estava calmo, por isso me deixaram ir, por isso fui. que fotografar pancadas de mar, de terra, é uma coisa, levar com elas em cima …não é conveniente, nem o arrais pode correr esse risco.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

 

as raízes


uma bateira aproxima-se enquanto me afasto

uma bateira aproxima-se  e eu… abraço raul

 

os rostos os gestos

as palavras os abraços

surgem ágeis

 

porém os nomes

fogem-me

 

a memória

os anos desgastaram-na(me)

 

para além do querer

o ser assim

esta coisa cheia de tantos

sem nome já

onde resistem imagens e emoções

 

como se chama?

 

alguns

reconstrução penosa e lenta

vêm vindo pela mão

da imagem e enchem-se de si

de mim de nós

a palavra forma-se sem pressas de

o nome regressa

sem mais ajuda

 

mas

como esquecer as raízes?

 

 

2011, um ano inovador para a xávega na torreira


 

um saco a secar e outro na zorra. sempre prontos

um saco a secar e outro na zorra. sempre prontos

 

2011 é um ano que serve de referência a qualquer história da prática da xávega na torreira, e que passa sem margem de dúvida pelas alterações introduzidas na companha do marco.

1. composição da companha

tradicionalmente as companhas da torreira eram compostas por gente da terra (marco e zé murta) ou de ovar (pepolim).

nas companhas da torreira, os homens oscilam entre a ria e o mar, consoante o que estiver a dar mais ganho. sendo o mar incerto, por feitio, e a ria incerta conforme o tipo de pescaria disponível e as interdições.

não é por isso fácil, manter uma companha pronta a trabalhar sempre que o mar permite. nem sempre o pessoal arrisca um dia no mar, quando na ria há ganho garantido.

em 2011, o marco decidiu ir buscar pescadores a cortegaça e a esmoriz, que se juntaram aos membros da companha que, sendo da torreira, só se dedicavam à xávega, no tempo da safra. a forma como foi constituída a companha em 2011, é inovadora em relação ao tradicional da torreira.

2. a muleta

também neste aspecto o marco inovou. em lugar da muleta tradicional, de uma só vara, ou de optar por uma muleta em metal em forma de “V”, como na praia de mira, adoptou um sistema, da sua autoria, que é constituído por duas varas de madeira, com extremidades adaptadas para encaixar em “cápsulas” fixas a bombordo e a estibordo, na metade traseira do barco e ao tractor. delas falarei em detalhe noutra altura

 

(torreira; companha do marco; 2011)

para ti, mãe


 

 

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

 

no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres

a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões

somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor

ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido

mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?

ouve mãe: eu sou

dos moliceiros


moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista

os moliceiros sempre tiveram três formas de se deslocarem na ria:

– com vento, à vela

– sem vento

1- à vara
2- à sirga (ajudada ou não por vara)

sem vento e se andava por dentro dos canais da ria, onde a vara calava, um dos camaradas ia para terra, atava uma corda, a que se chamava sirga, ao barco (golfião ou onde pudesse) e os dois iam levando o barco.

se a falta de vento ocorria onde a vara não calava, era somente com a ajuda corda que o barco era arrastado pela ria. do nome da corda, à forma de tracção, ficou a designação: andar à sirga

moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista