eu cidadão


 

cidadão

cidadão

 

se a taxa de irs subir

se o iva aumentar

 

a mim cidadão

diz o governo que

aumentam os impostos

 

se se cortam as pensões

se se cortam os ordenados dos funcionários públicos

se se corta o subsídio de desemprego

se se diminuem as prestações sociais

 

a mim cidadão

diz o governo que

diminui a despesa

 

entre o aumento

e a tal da diminuição

verdade seja dita

que

quem se lixa sempre

sou eu cidadão

 

(isto não é um poema, é uma foto: o retrato da relação sexual entre o governo e o cidadão)

pancada de mar


 

do remo que já foi

do remo que já foi

 

a espera e os primeiros embates (8)

 

quebrado o remo o mar quebra sobre o barco. devorá-lo se pudesse o faria.

os homens resguardam-se esperam, há camaradas em terra por eles

não quebram, que de madeira não são. vãs glórias porém não põem o pão na mesa.

recuar para avançar de novo e ser assim sempre é arte que nesta arte não é para todos.

não será ainda. mas será logo

 

(torreira; companha do marco; 2010)

pancada de mar


à muleta todos os que em terra

à muleta todos os que em terra

 

a espera e os primeiros embates (6)

 

aos remos os homens, dentro do barco, procuram ganhar ao mar. o motor não “cala”.

à muleta, ainda presa à ré do barco; à muleta que serviu para o lançar no mar; à muleta homens e mulheres, à mão, à força de braços e pernas, sustêm o barco e mantêm-no em posição.

há tantas formas de remar, que só quem anda no mar as sabe……

 

(torreira; companha do marco; 2010)

há dias assim


praia de buarcos

praia de buarcos

 

há dias assim

sem palavras

sem assunto

dias de deixar tudo ir ver o mar

e não querer escrever nem pensar

 

há dias assim

em que o silêncio é enorme

engole tudo e

as palavras?

onde estão as palavras?

 

sequer fica uma página em branco

nem a desculpa gasta de não haver material

o material está aqui desmaterializado

na não escrita desta escrevedura

 

há dias assim

que queres

hoje não escrevo

ponto final