quase nada


praia de buarcos

praia de buarcos

quem sou eu
que não sei quem sou
dos tantos que em mim?
o quase em tudo
mário
(pretensiosismo esse do tudo)

o quase nada
eu
isso sim sei

as palavras quase
o estar com quase
o quase quase sempre
o que não vejo
o que não digo
onde não estou
onde estou e não

o quase tão simples de ser
o quase nada
eu

canso-me de correr e
a nada chego pleno de mim
o vazio entre tudo e
eu
o intervalo
apenas isso
as reticências para além de
o incompleto completamente

nem aquém fiquei
mário
nem aquém
não sei onde
não por aí
que cheio está esse lugar
por aqui?
mas
que aqui?

não tenho braços mário
para tanta geografia
onde todos os que
eu
abarcar quero

qual quase mário
qual quase
quase nada
eu
isso sim

 

do poema e de ti


do fogo

 

desenha uma letra

fá-lo com ternura

as letras

são sensíveis

muito

 

uma a uma vai-as desenhando

e juntando

como se fossem esqueleto

de coisa viva

as palavras são

 

há música

quando lentamente

soletras as palavras

a que as letras deram corpo

(vês, têm vida também as letras)

 

ouves-te no que lês?

és tu por dentro delas?

cada vez mais vivas

as palavras sorriem-te

como ninguém o sabe

 

estás mais leve

disseste-te

temes porém

o não teres sido ainda

é esse o encanto

da vida