algures
uns olhos nos esperam
outros nos deixam
assim se faz
o estar aqui
vivo
de olhos abertos
aos olhos que se abrem
olhas e
assim permaneces
tal me basta
para estar vivo
olho-te nos olhos
e é como se perguntasse:
que fiz eu ?
aqui
onde a vida começa
com o nascer do sol
o queimar do sal
aqui
envelhece-se mais cedo
nas mãos sulcos rasgados
pelas cordas
que puxam as redes e os barcos
escamas de peixe
salpicam-me o rosto
brincar é escolher sardinha
aguentar a picada do peixe aranha
e não chorar
aqui
cresce-se depressa
a trabalhar o mar
(torreira)
lentamente as redes vão deslizando para o interior da ria, em busca de peixe.
o silêncio pode-se ouvir e, como no meio do mar quando o barco da xávega lança o saco, estamos noutro mundo.
os olhos controlam a direcção do barco que deve seguir uma linha paralela à margem e no sentido norte/sul, ou como dizem os pescadores da ria, baixo/cima.
de tempos a tempos um pequeno toque no motor faz com que a bateira retome a direcção certa e não conflitue com as outras redes. é uma relação de solidariedade efectiva a que se encontra estabelecida entre os pescadores.
durante cerca de meia hora a rede desliza e os olhos lavam-se na limpidez da ria, enquanto o cérebro navega noutras terras.
a sensação de plenitude e liberdade é imensa.
assim a ria e suas artes
(ria de aveiro_torreira)
sempre pensei que
um jardim de flores
feito seria
coisas pequenas
salpicando a terra de
cores
e os meu olhos de
alegria
sempre pensei que
assim
seria
e nos teus olhos
todos os dias um jardim
para mim sorria
chegou o dia
foto de sofia carvalho
http://www.facebook.com/album.php?aid=2065907&id=1340696876
se há momentos de rara beleza nas artes de pesca da ria, o largar das redes da solheira é o mais fantástico: pelo silêncio; pelo modo como as bateiras se dispõem paralelamente, marcando posição; pelo momento exacto em que, começando a maré a vazar, todas, mas todas, se põem em movimento.
é um desfile lado a lado a toda a largura da ria, tão extenso que é infotografável. só estando dentro da bateira com o pescador nos apercebemos do quanto é extraordinária essa meia hora onde tudo se joga.
fui largar redes com vários pescadores da torreira, o joão costeira foi um deles.
ao longo de vários registos sucessivos, procurei ir falando do como, mas jamais serei capaz de dizer do quanto.
(torreira_algures no meio da ria)