pouco a pouco
o saco foi-se enchendo
um beijo aqui, uma carícia ali
uma ternura, tantas
eram dois
não a pegarem no saco
mas dentro dele a encherem-no
quando estava mesmo cheio
abriu as asas
e voou
de tão leve
despires-me-te
magia de saber
onde o corpo é
querer dizer-te
e não saber o quê
porque silenciada a voz
no sentir intenso de
caminhas por nós
caminhamos somos
erguem-se aquietadas
flores em botão
ansiosas por
bebe-mo-nos
a sede
e ficamos em silêncio
enquanto os corpos
cantam a música da vida
despires-te-me
te
estar em casa
é estar em mim
aqui a música é minha
sou eu
que a escrevo com palavras
que a desenho
na pauta do corpo
encontrar-me-ás
sempre em casa
porque eu sou a casa
tijolo a tijolo erguida
a partir do chão sentida
encosto ouvido ao mar
batem-me à porta
fico na dúvida
se não serei eu lá fora
entra
a casa é humilde
sem decorações avulsas
enchem-na a memória
livros, discos, rabiscos
eu
eu sou a casa
que mais querer então?
ainda não ouvi
a voz da sombra
clamando silêncio
ainda não vi
a luz dos cegos
na ponta dos dedos
nas asas das árvores
um pássaro ferido
voar para o céu
a terra escorrer sangue
de tão ferida
ainda não vi
o coração da pedra
sorrir à criança triste
tudo isto porém sinto
como a areia a onda
antes de
há quem nasça continente
eu nasci arquipélago
artes e ofícios muitos
de tudo um pouco
em tudo quase nada
o mesmo
agarrar pontas e atá-las
depois mais um nó
novas pontas sempre
em busca de outro nó
a desfazer também
sol e mar
inquietações de barco ancorado
angústias de infinito
e um infinito de angústias
uma praia
onde conchas ouvem peixes
murmúrios de ondas
troncos naufragados
cordas redes fios
vómitos de mar
palavras
em busca de um sentido
sentindo que só a busca é
caminho
falei-me
construo meticulosamente
o silêncio
formiga dos dias
carreio palavras
curvados os ombros de ser
peso
do senti-las assim
tão minhas, tão eu
navego em sensações
procuro não naufragar
de tanto
agarro-me a mim
sou-me cada vez mais
não me perguntes se
o sol se põe
se nasce
ou se é apenas a lua
é
fui eu que o fiz assim
na construção
do silêncio
as palavras
volvem-se em sons
ininteligíveis
também o sol
(buarcos)