te


nós

 

despires-me-te
magia de saber
onde o corpo é

querer dizer-te
e não saber o quê
porque silenciada a voz
no sentir intenso de

caminhas por nós
caminhamos somos
erguem-se aquietadas
flores em botão
ansiosas por

bebe-mo-nos
a sede
e ficamos em silêncio
enquanto os corpos
cantam a música da vida

despires-te-me
te

eu sou a casa


uma vela, apenas isso

 

estar em casa

é estar em mim

 

aqui a música é minha

sou eu

que a escrevo com palavras

que a desenho

na pauta do corpo

 

encontrar-me-ás

sempre em casa

porque eu sou a casa

tijolo a tijolo erguida

a partir do chão sentida

 

encosto ouvido ao mar

batem-me à porta

fico na dúvida

se não serei eu lá fora

 

entra

a casa é humilde

sem decorações avulsas

enchem-na a memória

livros, discos, rabiscos

 

eu

eu sou a casa

que mais querer então?

fragmentos de tempo


antes de

 

ainda não ouvi

a voz da sombra

clamando silêncio

 

ainda não vi

a luz dos cegos

na ponta dos dedos

nas asas das árvores

um pássaro ferido

voar para o céu

a terra escorrer sangue

de tão ferida

 

ainda não vi

o coração da pedra

sorrir à criança triste

 

tudo isto porém sinto

como a areia a onda

antes de

aviso


perigoso fugitivo da cadeia

aviso da polícia distrital a todos os elementos do sexo feminino:

hoje dia 4 de dezembro

acaba de fugir da cadeia regional dos 50
mais um sexygenário
cuidem-se

balanço 60


eu ao colo da minha avó benedita

 

há quem nasça continente

eu nasci arquipélago

 

artes e ofícios muitos

de tudo um pouco

em tudo quase nada

o mesmo

agarrar pontas e atá-las

depois mais um nó

novas pontas sempre

em busca de outro nó

a desfazer também

 

sol e mar

inquietações de barco ancorado

angústias de infinito

e um infinito de angústias

 

uma praia

onde conchas ouvem peixes

murmúrios de ondas

troncos naufragados

cordas redes fios

vómitos de mar

 

palavras

em busca de um sentido

sentindo que só a busca é

caminho

 

falei-me

que as palavras


tão leve e tão pesado, o tempo

 

que as palavras
te cheguem inteiras
sem pedras por dentro
nem lágrimas de terem sido

sejam o sorriso nas manhãs
em que eu já não esteja
e te falem de mim
do amor, do mar
da alegria que é estar vivo

que as palavras
te cheguem inteiras
como eu sempre

também o sol


o que queiras ver

construo meticulosamente

o silêncio

 

formiga dos dias

carreio palavras

curvados os ombros de ser

peso

do senti-las assim

tão minhas, tão eu

 

navego em sensações

procuro não naufragar

de tanto

agarro-me a mim

sou-me cada vez mais

 

não me perguntes se

o sol se põe

se nasce

ou se é apenas a lua

é

fui eu que o fiz assim

 

na construção

do silêncio

as palavras

volvem-se em sons

ininteligíveis

 

também o sol

 

(buarcos)