o poeta


poema

 

o poeta

o poeta habitava um bairro suburbano ainda com a traça dos velhos bairros históricos. todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, sentava-se no poial da porta e contemplava o filme das gentes e das coisas.

durante o dia, as palavras, os sons, as cores, tudo, lhe repassava pela mente cansada de tanta máquina.

no regresso, o dia terminava como começara, sentado no poial esperava a noite, de novo mergulhado no espectáculo da rua.

sempre com os olhos mais além, era conhecido de todos, pelo quase não estar como estava e pelo modo como se dirigia a todos. havia algo nele que ninguém sabia definir. 

dele sabiam apenas que nunca aprendera a ler e a escrever e que em todas as palavras que lhe ouviam havia uma música, também ela indefinível, acompanhada de um sorriso luminoso.

“o poeta” era, não carecia de mais.

do amor


sorriso

não

não te vou escrever

um poema de amor

primeiro porque não o sei

e, depois, porque o amor vive-se

ou se escrito outra coisa será

 

do amor

o escrever

é recriar o que poderia ter sido

ou inventar o desejo de ser

 

não

hoje apetece-me apenas estar contigo

não sabendo sequer se existes ou existirás

ficar assim no silêncio cúmplice

dos amantes

sem saber o que poderá acontecer

e que se acontecer

jamais será escrito

 

sim, hoje

apetece-me

estar contigo


o sol nas mãos

 

com o sol nas mãos
vou
desvairado
em busca do amanhecer

acordo as noites

as mãos
poisadas no corpo
fremente
atordoam-no

acordo as noites

sonho muito
sonho tudo
e não sou
nada

com o sol nas mãos
vou

uma gota de água


tantas gotas de água

 

a ternura
o abraço
a dádiva

uma gota de água
desliza no vidro
da janela

a ternura
é um substantivo
comum a dois

uma gota de água
suspensa
treme

o abraço
é um substantivo
incomensurável

uma gota de água
teimosa
cresce

a dádiva
é um substantivo
incomum a muitos

numa gota de água

quantos somos?


			

o sabor do amor


ruínas

 

como eu vos amo

homem da rua
mulher sem leite
criança sem pão

como eu vos amo

velhos sem casa
doentes, sós
sem remédios
porque sem nada

como eu vos amo

vós que só jantais
uma malga se sopa
água onde não sei
o quê ferveu

como eu vos amo

espoliados de tudo
escravos do mísero
ordenado,
quase mendigado

mas
como eu gostava
de não ser preciso
este amor
como eu gostava

um país faremos


ser e expandir-se

é possível
sonhar
outro país

um país de gestos limpos
e olhos claros
o país de sophia

ombro a ombro
solidário
um país
sem fome de justiça
nem janelas com grades
nas bocas famintas

um país
onde amanhã apeteça
onde ser
não seja a dolorosa caminhada
dos dias
mas o prazer renovado de dizer:
aqui sou

um país
aberto ao mar do sonho
seja o país de todos
e não apenas de alguns

é necessário
querer esse país
a partir de hoje
a partir de ti
a partir de nós

o país que queremos
é o país que faremos

sou


mais que uma flor, uma rosa

 

sou

tudo o que fui

 

sou

todos os que antes de mim

fizeram com que fosse

 

sou

a continuação, nada mais

da memória dos meus

ainda aqui, porque eu também

 

serei

quando deixar de ter sido

nos que em mim encontraram

raízes para o serem

e me amarem

 

somos

todos os que antes de nós

cansados de existir

subiram à terra

descansam no mar

ou simplesmente são

esta necessidade permanente

de os continuar a amar

 

todos os dias

sou

todos

apenas rosas


o fim e o início

ofereço-te

o pouco que tenho

palavras limpas

sonhos claros

amor muito

 

nada mais tenho

que nada  mais sou

um seixo rolado

um quase não tempo

um livro por abrir

e tão gasto de ser lido

 

ofereço-te

o pouco tenho

antes que

já nada

 

sei do fim

não sei do início

nem creio que volte

 

estas dúvidas

estas inquietudes

estas angústias

guardo-as para mim

 

a ti

ofereço-te apenas rosas

a marca


lareira ao ar livre

conhecemo-los
das feiras
das roupas e dos acessórios
de marca
por fora que por dentro sem
ela são

de terra em terra
de feira em feira
apregoam a qualidade dos seus produtos
a baixo preço

“é mais caro o crocodilo
que a t shirt”
mas é ele que vende
que os olhos dos outros
compram

uma marca nova
uma marca de marca
é uma marca que deixou de ser

mas os olhos vestem-se de marcas
que vêem
nesta sociedade de marca
que ninguém já quer comprar
tão má fama tem

vêem-na a ser vendida
pelos ciganos?
jamais
têm de ter confiança
no que vendem

(coimbra)