memórias do além tejo (do baú)


                                                        parede de portalegre, 2007

 

não vos dou palavras

dou-vos pernas, braços e um coração naufragado

 

não vos dou palavras

dou-me a mim todo transubstanciado em poema

aceitem, se quiserem, as palavras que não vos dou

mas não aplaudam

o vosso espectáculo

são as minhas lágrimas, angústias e desesperos

 

não vos dou palavras

dou-vos  bofetadas que, por vezes, aceitais com um sorriso

porque o sorriso é a vossa reacção típica

 

e se eu não escrevesse ?

e se eu não vivesse de olhos abertos sobre cada dia

em cada dia suportando estar vivo

inventando searas e papoilas no deserto dos vossos olhos ?

 

e se eu pudesse dormir como vós descansadamente

com um policial ou um romance à cabeceira

e se eu me sentisse satisfeito com a telenovela

e me bastasse o mau gosto de um jantar num restaurante de três estrelas

“em boa companhia”

para ser feliz ?

 

e se eu fosse como vós

que tudo tendes

e mesmo quando não tendes fechais os olhos e tendes tudo ?

 

e se eu não pensasse ?

se eu fosse como vós

não haveria mais palavras

porque não haveria mais chaparros solitários

as estações estariam sempre certas e eu seria sempre feliz

à vossa maneira, é certo, mas feliz

 

mas não

continuo a dar-vos palavras que não o são

continuo à procura de não sei bem o quê

mas continuo sempre

 

dou-vos este corpo

que escorre sangue, sonho, amor e ódio

a quem por vezes apetece ser como o vosso

só para não ter nada que escrever

a breve, muito breve, sesta


luciano caravela; 2010

é um costume entre os pescadores da xávega, que os que cheguem mais cedo para o primeiro lanço da tarde, cerca das 13h, 13,30h, aproveitem para uma pequena sesta à sombra do barco ou dos atrelados.

na torreira e na praia de mira, praias de grande tradição nesta arte de pesca, é comum encontrarem-se pescadores deitados enquanto o arrais não chega.

( torreira_ companha do murta)

(memória de milfontes nos anos 80)


                                                     figueira da foz; 2007

queremos estar vivos hoje

recusamos grilhetas antigas de senhores que já matámos

recusamos prender estas bocas

que queremos transbordantes de música

queremos estar vivos hoje

lançar braços sobre o silêncio

rasgar a solidão que cerca de arame farpado

os corações amortalhados nas grandes metrópoles

queremos estar vivos hoje

dizer esta alegria por dentro de nós

derrubar muros e barreiras de línguas e nações

somos todos a mesma gargalhada

e ousamos querer tudo que a tudo temos direito

queremos estar vivos hoje

que ninguém nos venha dizer por onde devemos ir

porque hoje

hoje nós sabemos  que queremos

os caminhos por onde seguir

queremos estar vivos hoje

gritar raivas antigas alegrias novas

pontes que construímos para o amanhã

que hoje queremos nosso

porque hoje

hoje

queremos estar vivos sempre

                                                         amor à beira mar; 2007

de milfontes


                                    onde o branco é mais branco; portalegre; 2007

 

aqui há uma luminosidade mais viva

é como se a luz viesse de dentro das coisas

e poisasse suavemente nos dedos

numa carícia de algar e anémonas

 

aqui as palavras crescem pelo corpo

depois de nascerem junto à terra

 

aqui eu sei de um recanto perto do sol

onde ainda é possível sonhar

e as manhãs

as infinitas e angustiantes manhãs urbanas

têm cheiro a pão alvo e trigo maduro

 

aqui as palavras correm como o mira

que diz a canção vai cheio

e tu

tu aqui

estás ainda da outra banda