palavras


 

 

orvalhadas

palavras

entre os teus dedos

(sente-as)

 

uma brisa

levá-las-á

para o mar

(deixa-as)

 

sobre as ondas

poisarão

imaculadas

em bando

(olha-as)

 

será este

o poema

que nunca escreverás

(lê-o)

são rosas mãezinha


são rosas

mãezinha

as nossas

ainda em botão

vermelhas

como tu gostas

como nós gostamos

 

sempre em botão

nós para ti

com alguns espinhos

que tu amorosamente

perdoas

 

são rosas

mãezinha

os teus filhos

os teus netos

as tuas bisnetas

são rosas mãezinha

 

não de estufa

como as rosas

que todos os anos

sempre que é data

em ramo florido

te ofereço

 

são tu

para além de ti

as tuas rosas

mãezinha

regresso ao além-tejo (sonho)


 

saudades do sul

das searas

e das mãos que trabalham

o barro

 

saudades do sul

e do roxo das uvas

brancas nos cachos

 

saudades do sul

e do pão

do sabor do chouriço

pendurado na fatia grande

do pão para todos

 

saudades do sul

em chegando ao barreiro…

que agora fica não atrás

mas à frente

porque

ao contrário da canção

agora o tejo vai ser atravessado

e o além-tejo mais próximo

 

saudades do sul

que acabam

não escrevo


enquanto escrevo

quantas crianças morrem

de fome?

quantos sofrem

tortura?

quantas mulheres são vítimas

de violência?

 

enquanto escrevo

dor

privação

riqueza

miséria extrema

sem abrigo

mansões de luxo

aqui

neste planeta onde

 

enquanto escrevo

onde estão as  mãos

estendidas

não para a agressão

mas para o amor?

 

enquanto escrevo

lembro-me:

hoje é dia mundial da poesia

e procuro-a ainda

fora do poema

que não escrevo

ninguém as vê


sentam-se logo pela manhã

atrás dos vidros

acordam os pássaros fronteiros

 

fazem a lide

a renda e a roupa

falam sozinhas

(ouve-se ao longe a rádio)

 

abrem a janela

trocam notícias fazem jornais

saberes antigos de outras tipografias

foram elas que

inventaram as rádios locais

 

passam a ferro

limpam o chão

sentam-se de novo

 

quando querem

da rua

                        ninguém as vê

balanço e não caio


um sobressalto no tempo

 

foram morrendo de cansaço
os dias pelo caminho
amigos também
os houve que

365 dias desde o primeiro
se disseram
segundo a segundo escutados

quantos segundos tem um ano?
difícil a resposta
porém em cada um fomos
quantas vezes sem o sabermos
de tão distraídos estarmos
em fúteis coisas

passámos mais uma vez no tempo
consolando-nos ao dizer:
o tempo passou
ao menos que fôssemos
e teríamos sido tanto

façam as contas:
365X24X60x60
(trinta e um milhões
quinhentos e trinta e seis mil
segundos)
em que muitas vezes
não fomos primeiros

saibamos aproveitá-los melhor
em cada segundo sendo
os primeiros
em 2012