enorme!


 

(isto não é um poema)

 

 

as palavras

são agora

ferramentas de matemática

apreenderam as quatro operações

 

aplica-as ao teu vencimento bruto mensal

os multiplicadores

encontra-los na proposta de orçamento

e na folha onde se espelha

a transformação em euros

do teu esforço

 

com eles faz um simples

exercício de cálculo:

determina o quanto vais receber

mensalmente em 2013

 

isto não é um poema

agradável

o teu achado

também não

 

é por isso

esta raiva

este ter de te dizer

 

o lado escuro da luz

é ávido

enorme!

 

é duro

o lado negro da luz tresanda


o lado negro da luz

 

não inventes o poema

ele está aí

anda pelas ruas

desesperado

sem abrigo

com fome

em busca de emprego

 

a idade do aquário

e tu peixe

borbulhando palavras

gastas

cansadas de tão

não é deste tempo

 

querem-se palavras

deste

estar aqui

agora

quando

 

o lado negro da luz

é mais visível:

tresanda

o lado negro da luz (1)


o lado negro da luz

recuso cantar o desejo

sublimado em palavras

no inventar de um corpo

sonho a percorrer

não é este o tempo de

 

quando tudo escasseia

até o pão da palavra

é ázimo

as ruas estão cheias

de bocas vazias

e tu cantas o corpo

o corpo que, sei lá,

não sabes se terias

 

trago as pedras da calçada

para o teclado

atiro com elas ao monitor

onde um homem se diz ser de raça

sem que se saiba de que raça é

o raça do homem

que muitas somos

nenhuma a dele porém

 

 

o lado negro da luz

é cada vez mais visível:

cortante