matinal labor este
o de tecer as malhas do dia
sob o olhar sereno
da mãe ria
(ria de aveiro; torreira)
inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando
a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer
dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu
sou eu
(ria de aveiro; torreira)
“a ria está morta. não vejo bateiras”
(palavras de meu pai no verão de 2014)
estou vivo e assisto
tudo tem o seu tempo
não descontando o tempo
que os homens ao tempo roubaram
o que foi não voltará a ser
haja quantos programas inventem
mataram e deixam morrer
vendilhões de um templo outro
vendem-se e vendem os que ainda não
pantomineiros de um futuro inexistente
estou vivo e assisto
as palavras são apenas isso
palavras
as imagens a denúncia insuficiente
a beleza
ilusão para quem não tem outra memória
já é pouca a vida que resta
ao que resta de ter havido
a solidão ameaça os dias
depois de todos terem partido
estou vivo
mas não para isto
(ria de aveiro; torreira)
que mais me resta senão
inventar
dia a dia o dia em que
pinto tudo de novo
como se casa minha
habitada por
e vou por aí
com os sonhos no peito
emprestando a ilusão
de que tudo é belo
e a serenidade algo tão natural
como o seu inventar
aquietadas as angústias
abro os braços
e abraço o vazio
continuo eu
(ria de aveiro; torreira)