postais da ria (34)


perdidamente

perdidamente

inventar as cores e as coisas
despovoar a paisagem
como se tudo já tivesse sido
para voltar a ser de modo diverso
recriar recreando

a luz e a sombra
o doirado que semeio
a prata lançada sobre as águas
o rebrilhar da criação
o fazer

dentro do tempo um homem sorri
é uma criança traquinas
que nunca cresceu

sou eu

ahcravo_DSC_4488_ contra luz

(ria de aveiro; torreira)

antevisão da ria


ensurdecedor este silâncio

ensurdecedor este silêncio

“a ria está morta. não vejo bateiras”
(palavras de meu pai no verão de 2014)

estou vivo e assisto

tudo tem o seu tempo
não descontando o tempo
que os homens ao tempo roubaram

o que foi não voltará a ser
haja quantos programas inventem
mataram e deixam morrer

vendilhões de um templo outro
vendem-se e vendem os que ainda não
pantomineiros de um futuro inexistente

estou vivo e assisto

as palavras são apenas isso
palavras
as imagens a denúncia insuficiente
a beleza
ilusão para quem não tem outra memória

já é pouca a vida que resta
ao que resta de ter havido

a solidão ameaça os dias
depois de todos terem partido

estou vivo
mas não para isto

(ria de aveiro; torreira)

ahcravo_DSC_0676 bw

continuo eu


 

como escreveu o poeta "ei-los que partem"

como escreveu o poeta “ei-los que partem”

que mais me resta senão
inventar
dia a dia o dia em que
pinto tudo de novo
como se casa minha
habitada por

e vou por aí
com os sonhos no peito
emprestando a ilusão
de que tudo é belo
e a serenidade algo tão natural
como o seu inventar

aquietadas as angústias
abro os braços
e abraço o vazio

continuo eu

 

(ria de aveiro; torreira)

procuro viver


 

 

algures no meio da ria com o salvador rilho

algures no meio da ria com o salvador rilho

quisera
ser o que conta
memórias minhas feitas tuas
do ter acontecido
e eu

caminho por onde
caminhos faço
efémero é ser eu aqui
e tu sempre
que é teu o devir
e o que para ti deixo

sou o que anda
e nada deixa
porque não fica

eu não existo
procuro viver