os moliceiros têm vela (56)


para o arrais marco

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

como as árvores
os amigos

como os diamantes
raros são

um barco voga lento
um amigo dentro

quando o homem é barco só lhe resta navegar

quando o homem é barco só lhe resta navegar

(torreira; regata do s.paio; 2010)

os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)

os moliceiros têm vela (34)


do medo

são moliceiros

são moliceiros

o medo é grande nas terras
piquenas
nas terras do tamanho das
gentes delas

o medo senta-se à mesa
do café
pede uma bica um copo
de água
o jornal da mesa do lado
se vago

o medo fuma um cigarro

o medo invadiu as casas
cegou muitos
paralisou alguns
calou quase todos
uns porque sim
outros porque também

o medo detém meios
oferece lugares
distribui subsídios
piquenos trabalhos
alguns favores
o medo é bom senhor

o medo passeia a gravata
pelas ruas no carro de serviço
o medo sorri pela janela
acena a quem passa
o medo é educado

o medo tem a sua corte
e o silêncio dos restantes

o medo inundou as ruas
transbordou para as praças

o medo
parou à porta do cemitério
porque depressa concluiu

que chegara tarde

os cisnes da ria num céu de sonho

os cisnes da ria num céu de sonho

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2014)

os moliceiros têm vela (27)


são tantos

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram

vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram

lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia

são os rios desta terra

homem da ria

homem da ria

(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (22)


dos amigos

como se num baile

como se num baile

sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem

uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto

atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber

joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti

há mais caminhos que pedras

dancem e brilhem os olhos de tanto

dancem e brilhem os olhos de tanto

(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)

os moliceiros têm vela (14)


era uma vez …… num país longe da murtosa

o a rendeiro a mostrar o que vale

o a rendeiro a mostrar o que vale

avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá

avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros

então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?

mostra-me uma foto de um moliceiro

tão lindo!

sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta

olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:

o moliceiro

avô, eu gosto muito de ti
mas ……

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)

porque vai haver um amanhã