ser finito
sei de onde vim
não sei para onde vou
vivi quanto pude e soube
todos os dias foram o dia
despeço-me de ontem
para ser hoje
o que não serei amanhã
do medo
o medo é grande nas terras
piquenas
nas terras do tamanho das
gentes delas
o medo senta-se à mesa
do café
pede uma bica um copo
de água
o jornal da mesa do lado
se vago
o medo fuma um cigarro
o medo invadiu as casas
cegou muitos
paralisou alguns
calou quase todos
uns porque sim
outros porque também
o medo detém meios
oferece lugares
distribui subsídios
piquenos trabalhos
alguns favores
o medo é bom senhor
o medo passeia a gravata
pelas ruas no carro de serviço
o medo sorri pela janela
acena a quem passa
o medo é educado
o medo tem a sua corte
e o silêncio dos restantes
o medo inundou as ruas
transbordou para as praças
o medo
parou à porta do cemitério
porque depressa concluiu
que chegara tarde
(torreira; regata do s. paio; setembro, 2014)
são tantos
vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram
vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram
lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia
são os rios desta terra
(torreira; regata do s. paio; 2014)
dos amigos
sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem
uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto
atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber
joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti
há mais caminhos que pedras
(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)
era uma vez …… num país longe da murtosa
avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá
avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros
então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?
mostra-me uma foto de um moliceiro
tão lindo!
sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta
olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:
o moliceiro
avô, eu gosto muito de ti
mas ……
(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)
porque vai haver um amanhã