quando o mar trabalha na torreira_ arrais zé murta


arrais zé murta (falecido)

 

olhos fixos no mar
não perco de vista os arinques
procuro a calime

vejo como se deslocam

pelos desvios
da perpendicular à areia
descubro as correntes

entretanto vou enrolando as cordas
preparando tudo para nova partida
que o tempo é pouco
e é preciso aproveitar
estes dias de sol e calmaria

pescador
em terra sou
o que as redes ao mar deitou

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_mulher do torrão do lameiro


 

 

mulher do torrão do lameiro (?)

 

quanto tempo mais
andarei por aqui
a escrever no livro da xávega
as linhas poucas
da minha vida

os anos passaram
no correr da areia pelo vento
levantada

a noite aproxima-se

tudo olho com amor
porque tudo sou eu
em tudo estou ou estive

a minha assinatura
deixada nas cordas redes
peixe que escolhi e carreguei
é só mais uma
como eu

quanto tempo mais
andarei por aqui ?

xávega, ainda o arribar


zé caravela
 
o barco aproxima-se de terra, está já à vista, em terra o pessoal prepara-se para as manobras necessárias ao “bom arribar”.
 
o zé, segura o cabo que tem na ponta o gancho que vai engatar no arganel da proa que, com outro camarada, com outro gancho, fará com que o barco se mantenha perpendicular à praia e seja rapidamente puxado pelo tractor.
 
delicada manobra esta.
 
(torreira; companha do murta; 2007)
 

quando o mar trabalha na torreira_ti alfredo fareja (falecido)


ti alfredo fareja (falecido)

 

pende-me da boca o cigarro

assim os dias
escorregam pelo tempo

olho o peixe
ainda a saltar
é pouco não basta
faço as contas
a este viver
cansado
mais que o cigarro

outro lanço se seguirá

talvez
um sorriso na face vá nascer
com sabor a esforço compensado
peixe que seja pão
para todos

um cigarro pende-me da boca

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_preciosa


preciosa

 

pelo mar entro
como se em casa
meigas as ondas
afagam-me as pernas
mãos de mãe
beijos de amante

irmã mais nova
de quantas por aqui andaram
trago no corpo a alegria
de estar viva

mulher menina
nada e criada
entre mar e areia

correm-me barcos nas veias
e são peixes estes braços
que te apertam
nas malhas de amar

(torreira; século XX)

xávega_entre os bois e os tractores


força humana
 
este registo é a memória de um tempo de transição, na xávega da torreira, em que as juntas de bois já não eram utilizadas e os tractores ainda não tinham sido introduzidos.
 
foi um tempo curto, mas em que se trabalhou à moda do início da arte, todo o esforço era humano, à excepção do motor que já se encontrava instalado no barco.
 
(torreira; século XX)
 

quando o mar trabalha na torreira


humana a força toda - que os bois já acabaram e os tractores ainda não

 

à força de braços e arte
deslizando sobre varas
caminhada lenta pausada
o barco chega ao mar

assim o início

provocadoras
ondas chamam
amor seu
vida nossa

homens sobem
inundam o barco de força
aos remos
serão poucos
bastantes porém

lanço
que começa
esperança
no que o mar
para dar tem

 

(torreira; século XX)