sobre a areia
ergueram o seu abrigo
puseram mesa
esperaram nela comer
o que do mar
chegaram ainda noite
ao romper do dia
o barco no mar
as redes
esperam
ordens do arrais
que até na mesa se faz sentir
esperam os homens
a rede
no fim o saco
quem sabe
o peixe
rente à areia
corre a cala
avista-se o calão
o peixe
não
tudo tem seu tempo
aqui
onde o tempo corre
pelos sulcos rasgados no rosto
salgados viveres
amargos
(à memória do arrais zé murta, torreira, 2008)
vão duros os tempos
da companha que hoje
urgente se torna
ou somos nós os camaradas
ou o peixe caído na rede
dos financeiros
armadores da trama
é tempo de decidir
quem quer ser o quê
é tempo de saber
se um homem vale mais
que um peixe
canta se tens voz
grita se revoltado
silencia-te se morto
diz de ti
somaram-se
os dias
na safra do pão
foi-se
na conta o ano
amigos
chegaram e partiram
alegrias tristezas
perdas e ganhos
como se na china
de um animal
o ano
coelho
como se na china
o ano se fez
do salário
cada vez menos
gasparado que foi
no desgoverno
portugal
quem são?
este país
quem é?
passo a passo
passos
só tem um destino
saberemos dar-lho
ou não seremos
povo?