quando o mar trabalha na torreira_da partida


 

sinto que posso partir

o tempo passou

como o norte no cabelo

 

a despedida está feita

volto à terra

ao seu seio mais fundo

 

a minha viagem

foi longa

o destino aproxima-se

aí me apearei

e serei terra também

 

deixo no mar

nos meus irmãos

de outros arados

a lembrança

de um vestido negro

e um guarda chuva em dias de sol

 

vim da terra

à terra volto

levo comigo o mar

sei que vou morrer

cheia de vida

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_antónio trabalhito (barbeiro)


antónio trabalhito (barbeiro)_falecido

 

pescador
já meu avô o era
quando o meu pai o foi
eu começava a ser

gatinhava pela areia
ao colo de minha mãe
quando cansado

o mar sempre

corria então pela areia
atrás das redes gentes bois
ria-me com os peixes a saltar na lona
escondia-me na sombra dos barcos
sentava-me nas cordas
cadeiras minhas de criança

há quanto tempo…

hoje já eu fui
meu filho é
meu neto que será ?

 

(torreira, século XX)