carlos aldeia


carlos aldeia; anos 90

 

amanhã outro dia
será

é assim no mar
vive-se cada dia como se
o primeiro
o último

amanhã outro copo
virá

é assim na tasca
um copo de ressaca
uma onda varre o corpo
uma carta sai do baralho
uma noite passa no tempo

amanhã outra faina
será

vida de pescador
é percorrer em terra
caminhos que no mar rasgou

e eu sou

antónio tabalhito (barbeiro)


antónio trabalhito (barbeiro); 2005

 

chamava-se antónio trabalhito, mas era mais conhecido pelo antónio barbeiro. ia a casa de quem quisesse, fazia barbas e cortava cabelos.

homem de mar, andou pelo bacalhau e ajudou o marco a lançar-se com a sua companha.

era um bom amigo, o nosso tratamento era por tu. há anos tinha sido operado ao coração e ultimamente fazia uma vida recatada.

foi ontem a enterrar, mas ainda consigo ouvir a sua voz e vou ouvi-la durante muito tempo.

onde quer que estejas antónio, ensina-os a pescar.

abraço do teu sempre amigo

cravo

( torreira – companha do marco 2005)

Comentarios

arrais manuel firmino


arrais manuel firmino

levanto-me
abro a porta
o mar entra-me pela casa

tenho ondas no quarto
e há nortada
a chamar-me

navego ainda noutras águas
mais tintas que claras
a noite foi longa
o nevoeiro caiu pela madrugada

começo a acordar
há um grito que me chama

é o arrais
a voz ecoa no ar
trazida pelo vento norte

o mar está de feição
resta-nos tentar a sorte

 

é carapau


o esventrar do seco

 

lentamente vai-se o saco esventrando.

o adivinhado brilho do peixe salta agora aos olhos ridentes

é carapau, é farto e de bom tamanho

a navalha corta o fio

o peixe estrebucha ainda

o sorriso espalha-se na companha

o peixe se fará pão

e o suor sentar-se-á à mesa

na partilha

( torreira_companha do marco)

xávega – o vazar do saco – abrir o saco


 

o abrir do saco

quando o saco vem cheio é uma festa, mas é uma festa de trabalho polvilhada de sal e escamas.

com este registo inicio uma série sobre o esvaziar do saco e todo o trabalho e esforço necessário espelhado nos movimentos congelados pela máquina.

o primeiro momento é o cortar da linha que fecha o saco.

(torreira_companha do marco)

infantário da xávega


filhos da xávega

 

é este o meu infantário

sou só olhos
pernas não sei
palavras não tenho

sou só olhos
à minha frente o mar
o meu pai no barco
o barco no mar
a minha mãe nas redes
as redes em terra
todos no peixe

tudo isto vejo
em tudo me perco e não entendo

amanhã
ali estarei sem o saber agora

começo a aprender
que ser criança aqui
é espuma
que o mar deixa na areia
e secará com o sol e o sal

é este o meu infantário …

 

(torreira)