marco silva


marco silva, arrais da companha

marco silva, arrais da companha

enquanto os aladores trabalham e vão trazendo a rede para terra vai-se controlando a posição dos arinques – bóias amarradas aos calões e que os sinalizam – têm de vir alinhados e paralelos à costa e a calime – bóia do topo do saco – no centro dos dois.

para que tal aconteça os homens no comando dos aladores estão em contacto permanente para controlar o andamento do alar.

hoje usam-se walkie talkies, mas eram os gritos, os sinais com bonés ou assobios que chamavam a atenção para o andamento a corrigir.

este é um dos momentos cruciais da pesca, que dura mais de 1h30m, e em que se pode deitar o lanço a perder: arinques desalinhados é peixe a fugir do cerco.

(companha do marco; torreira; 2010)

nicole e ti miguel bitaolra


nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

nicole (falecido) e ti miguel bitaolra

voa o peixe
das mãos dos homens
irmãos nesta lide de mar
nesta safra rala de pão

as mãos
sempre as mãos
tudo decidem
depois de pensado o destino
feita a escolha

que importa a ucrânia
tão longe
a torreira
aqui já

o mar todos une
e o que já partiu
habita no que ainda por cá
em cada escama
de cada dia

falo dos amigos
e das teias que xávega tece

(companha do marco; torreira; 2010)

tempos cinzentos


mãe e filho: ana e alfredo amaral

mãe e filho: ana e alfredo amaral

 

tempos cinzentos estes
em que se espera que o pão
o de cada dia
chegue à mesa depois de um dia
de trabalho duro
ou sem trabalho
ou de mar ingrato

isto te ensinei meu filho
o caminho de areia
o caminho por onde o teu sorriso
o teu esforço para além do teu corpo
que do meu

tempos cinzentos estes
em que cada vez menos somos
quando mais nos disseram
que seríamos
saberão que somos
mais que números?

tempos cinzentos estes
por mais que nos prometam pomares
e sumo basto de laranja
ao pequeno almoço

 

(companha do marco; torreira; 2010)

zé caravela


 

 

 

zé caravela

zé caravela

abraçar o mar
com a força dos olhos

sentir o mar
nos braços
no peso das cordas
nos pés que se enterram na areia
ao peso de tudo

saber o mar
lê-lo com todos os sentidos
e saber que nada se sabe a não ser
que é o mar

o mesmo mar
com quem teimar
é destino diário
e não cântico efémero
sem saber notas
nem ler pautas
só para encantar

conhecer o mar?
pretensão de quem pensa
em tudo poder mandar

que tamanho tem o homem?


 

o arrais marco silva, torreira, 2010

o arrais marco silva, torreira, 2010

o do desafio que aceita?

o do sonho porque luta?
o do amor que o alimenta?

não há mar a mais
nem se precisam de homens do leme
há saberes e rotas
desejos e metas

há o Homem
que só o é porque há outros homens
saibam-no ou não
basta que ele o saiba
e seja mais que ele
seja todos
mesmo aqueles que não se sabem
para o saber a ele

o tamanho do homem?
boa pergunta

o arribar da “mão de barca”


 

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quando o barco de mar arriba traz consigo a cala “mão de barca” que, puxada pelo alador, fecha o cerco cuja outra extremidade é o “reçoeiro” – a cala que ficou em terra.

para chegar ao alador e começar a máquina a trabalhar é preciso força de braço.

força da gente de terra, força, força, muita.

 

companha do marco; torreira; 2010