da liberdade de expressão
sejam para as palavras
os livros a única prisão
(praia da torreira; depois do verão)
a estreia do ricardo silva
ontem fui pela última vez ao mar este ano. o mar estava manso por isso fui, nada de armar em campeão, nem de pôr em causa a atenção que o arrais tem de ter ao fazer do lanço. vou mas não existo como preocupação.
se para mim foi a última ida do ano, para o ricardo foi a primeira vez que o pai o deixou “ir ao motor” num lanço de xávega. a responsabilidade é grande, o sentir o motor nas mãos e o barco a seu mando, só quem alguma vez andou, pelo menos, dentro de um barco de mar pode sentir o que representa.
o mar estava manso, repito, o coração do ricardo pequenino, os olhos atentos ao mar, sempre a mirar o longe, enquanto o pai, o horácio e o agostinho lhe iam dizendo como fazer.
foi bom ver como todos se uniram em volta do ricardo, para que tudo corresse bem. e correu. foi um lanço de peixe e de fazer um puto sentir-se ainda mais homem….. e de um homem sorrir como um puto.
abraço ricardo, foi bom estar com todos no barco onde tu, pela primeira vez, te sentiste arrais.
quem sabe, para o ano eu volto
(torreira; companha do marco; 2015)
nunca
duas faces têm os dias
nunca saberás o peso
do fardo de ser
até te pesar nos ombros
o amargor das palavras
onde amor devia
duas faces têm os dias
verga-se não o corpo
mas o que dentro dele
mais frágil e sensível
é no mar que afogas
a raiva de seres assim
dares a outra face
nunca
(torreira; companha do marco; 2014)
se te apanho
deixaste os portugueses atrás
na fuga precipitada para o abismo
empurrado por uma europa
a que só resta um eu no centro
solidário consigo mesmo
deixaste os portugueses atrás
destruíste lares laços afectos
semeaste desespero fome abandonos
encheste os bolsos de alguns
fazendo deles o país não o povo
não me digas que depois de tantos
atrás deixares esquecidos que foram
menos no esbulhar dos haveres parcos
depois de tanto teres feito para tão poucos
a troco de trinta dinheiros embolsados
vigarices muitas falta de princípios basta
não me digas
portugal à frente
que à frente irás tu
tenha o povo memória
saibam as gentes o que querem
portugal à frente
e eu atrás de ti
se te apanho
(torreira; companha do marco; 2013)