entrevista de mestre felisberto amador (caçoilo) ao diário de aveiro de dia 3 de novembro de 2020


mestre felisberto; fotografia de paulo ramos

Felisberto Amador molda moliceiros
na madeira bruta há quase 50 anos


Estarreja

É um dos últimos embaixadores da arte da carpintaria naval, talhando artesanalmente embarcações tradicionais da ria de Aveiro num estaleiro desactivado situado em Pardilhó

(Luís Ventura)

A freguesia de Pardilhó, no concelho de Estarreja, é uma terra de bons e afamados carpinteiros de construção naval da Ria deAveiro. Entre estes, o mestre Henrique Lavoura é um dos nomes de referência.


No seu antigo estaleiro desactivado de Pardilhó, no acesso à Ribeira da Aldeia, com capacidade para construção e reparação de embarcações até 50 toneladas, muitos aprenderam a arte, mas poucos resistiram.


Felisberto Amador, 61 anos, foi um deles. Aprendeu a arte da construção naval, ao mesmo tempo um património cultural, material e imaterial que se funde com a história local e com a sua própria estória.


A sua vida é uma narrativa criada à volta das ferramentas e utensílios usados na construção de todo o tipo de embarcações. A partir dos 14 anos, Felisberto Amador não teve outra vida. “O meu pai e irmãos eram carpinteiros, mas eu não queria, por isso, fui para casa do meu primo Henrique Lavoura, que tinha um estaleiro, e lá aprendi esta arte”, contou ao Diário de Aveiro. “Verdade seja dita, todos os que trabalham nesta área por aqui são discípulos dele”, sublinha, atestando a importância e conhecimento do primo, cujo espólio pode ser admirado no Centro de Interpretação da Construção Naval, instalado na freguesia de Pardilhó.


Felisberto Amador molda a madeira com uma facilidade que impressiona. “Tudo o que fosse de madeira bruta era comigo”, diz a rir. “Cheguei a fazer um barco moliceiro sozinho, num mês”, atira, com orgulho. Mas depois tudo mudou com as alterações no ecossistema lagunar. O moliço foi desaparecendo da Ria e “chegámos a uma fase em que estivemos muito parados e quase todos desistiram desta arte”. Com o advento da década de1980, “fiquei sozinho a trabalhar, a arte deixou de ter futuro e mandei o meu filho empregar-se porque mal dava para eu comer”.


Felisberto Amador chegou a fazer o luto à arte. “Estava convencido de que isto ia acabar, mas então começou a febre dos passeios turisticos nos canais de Aveiro e isto reavivou, ressuscitou. Foi uma alteração muito grande porque antes disso não havia nada”, recorda.

O regresso à Ria

Começou por construir um mercantel para a empresa Cale do Oiro, um operador turístico aveirense, e, entre outras encomendas, agora está a fazer a manutenção de mais um. Diz–lhe a experiência que “todos os anos estes barcos deviam ter muita atenção, porque da linha de água para cima estão sempre fora de água, secam e estragam-se”. Quando faziam o que lhes estava destinado originalmente, “andavam sempre fresquinhos, carregados com moliço e sal, para cá e para lá. Agora não, levam calor e chuva por cima e duram pouco tempo”.

O último moliceiro que construiu e vendeu foi há três anos e, hoje, mantém um guardado em casa, de estimação, e por gosto.“Como já não há moliço, tenho um barco para que a tradição não morra por aqui, em Pardilhó”, esclarece. Mete-o na água no cais do Nacinho “para brincar e fazer umas regatas na Murtosa e em Aveiro”. “Este ano nem fui”. Antigamente,“ os barcos iam todos daqui, de Pardilhó. Até fragatas iam para o Rio Tejo”, recorda ouvir dizer.


O Centro de Interpretação da Construção Naval, que substituiu o velho barracão existente na Ribeira da Aldeia, além de espaço museuológico, prevê a realização de actividades de construção naval de embarcações tradicionais e formação profissional de carpintaria, entre outras actividades. Homenagear a arte da carpintaria naval é, também,uma forma de apreservar, incentivando os mais novos a aprender e a adquirirem estes conhecimentos junto dos construtores navais ainda em actividade.


Ainda hoje, além de Felisberto, nos seus estaleiros, os construtores navais António Esteves e Arménio Almeida talham artesanalmente muitas embarcações,usando o pau de pontos, onde estão gravadas as medidas das embarcações, a serra de mão, o enxó ou a gata, que serve para erguer peças na embarcação. Para aprender tem de ser com eles. Felisberto Amador não parece muito convencido: “A malta nova é dificil, mas pode ser que consigam atrair algum”.

Atrair a juventude


Hoje é tudo muito efémero e “um moliceiro demora muito a construir”, ajuiza, alertando que os construtores debatem-se, além de tudo, com dificuldades para encontrar boa madeira: “Está muito difícil de arranjar madeira de pinheiro manso”, num contraste preocupante com o que se passava até recentemente. “Antes havia toneladas de madeira de qualidade, em Albergaria-a-Velha, para escolher, mas os fogos destruíram, reduziram tudo a cinza e já não há como havia. Havia pinheiros limpinhos que eram uma maravilha para fazer as imprescindíveis costelas dos barcos moliceiros”. Agora, tem de ir a Alcácer-do-Sal. “É complicado”, sintetiza, com ar de quem nem gosta de falar no assunto.


Para se ser mestre de construção naval, hoje, tem de se “gostar muito”e estar disposto a ultrapassar muitos obstáculos, o que desmotiva mesmo os mais inveterados, como Felisberto Amador: “Enquanto puder vou trabalhando, mas já não consigo fazer um moliceiro num mês, como já fiz”, ri-se, para que não restem dúvidas. “Após um dia de trabalho, quando me deito, dói-me o corpo todo, mas de manhã está tudo bem. Enquanto assim for, vou continuando”, promete


O engenho e a destreza dos mestres

A construção de barcos em madeira no concelho de Estarreja remonta ao século XIX. Segundo a Estatística Industrial do Distrito de Aveiro, de 1867, Estarreja, que então abrangia a Murtosa, registou o lançamento à água de 85 barcos, entre os quais barcos grandes de pesca no mar. O engenho e destreza dos mestres e a abundância da mão-de–obra especializada justificou a fixação, em Pardilhó, em 1937, da delegação distrital dos Sindicatos dos Operários da Construção Naval. Na década de 40/50 havia, só em Pardilhó, mais de 30 carpinteiros navais no activo. Hoje, restam três devidamente homenageados com a atribuição, em 2019, da Medalha de Mérito Municipal, o galardão máximo atribuído pelo município de Estarreja

(nota: de todos os mestres ainda a trabalhar, o mestre felisberto amador (caçoilo) é o único de que não tenho entrevista gravada em vídeo. adiada de ano para ano. vamos ver se em 2021 é de vez.

para ver as entrevistas em video basta entrar no meu canal no YouTube)

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