postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)

postais da ria (60)


hora imprópria

(para o josé antónio pereira)

a luz

a luz

fotografar quando?
como?
porquê?

porque me provocaram

hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar

hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro

as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível

a fotografia
a possível

não me provoquem

as cores

as cores

(torreira, 3 de janeiro; 13h)

postais da ria (59)


para o antónio gama

o dia cai e nós

o dia cai e nós . . . 

hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto

continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver

ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu

à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu

os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda

abraço antónio

como em sangue

como em sangue

(murtosa; cais do bico)

postais da ria (54)


eis a questão

o silêncio da ria convida

o silêncio da ria convida

ser ou não ser
não é a questão
ambos são

fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão

faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo

o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser

eis a questão

a beleza da ria surpreende

a beleza da ria surpreende

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (53)


aos meus amigos josé gomes ferreira e joaquim namorado

afundam-nos

afundam-nos

a ignorância povoa este tempo
mão dada com a incompetência
a arrogância dos velhos tempos

não
amigos meus de sempre
não tenho saudades do futuro

o futuro virá carregado de um passado
que nunca o foi
e isso não é futuro para ninguém
como ter saudades de tal coisa?

o passado que matam sem dó
era o presente que eu gostava de deixar
embrulhado em amor aos vindouros
cuidado por nós todos os de agora
juntos pela memória do onde fomos
morre antes mim o que queria por herança deixar

um dia dir-lhes-ão o nome e escurecerão
mas perder-se-á também a memória
do que destruíram quando foram

fraca gente esta que hoje

afundam-nos e nós deixamos?

afundam-nos e nós deixamos?

(murtosa; cais do bico)

postais da ria (51) – sou murtoseiro


 muito dura a vida na ria

muito dura a vida na ria

a minha gente
fez da água terra

atravessou o mar
em busca de outras terras

a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram

a minha gente
fala de amor
quando diz

sou murtoseiro

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

(ria de aveiro; torreira)