do sonho
afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas
sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra
sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei
isso me basta
(ria de aveiro; mariscar)
hora imprópria
(para o josé antónio pereira)
fotografar quando?
como?
porquê?
porque me provocaram
hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar
hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro
as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível
a fotografia
a possível
não me provoquem
(torreira, 3 de janeiro; 13h)
para o antónio gama
hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto
continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver
ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu
à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu
os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda
abraço antónio
(murtosa; cais do bico)
eis a questão
ser ou não ser
não é a questão
ambos são
fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão
faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo
o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser
eis a questão
(ria de aveiro; torreira)
aos meus amigos josé gomes ferreira e joaquim namorado
a ignorância povoa este tempo
mão dada com a incompetência
a arrogância dos velhos tempos
não
amigos meus de sempre
não tenho saudades do futuro
o futuro virá carregado de um passado
que nunca o foi
e isso não é futuro para ninguém
como ter saudades de tal coisa?
o passado que matam sem dó
era o presente que eu gostava de deixar
embrulhado em amor aos vindouros
cuidado por nós todos os de agora
juntos pela memória do onde fomos
morre antes mim o que queria por herança deixar
um dia dir-lhes-ão o nome e escurecerão
mas perder-se-á também a memória
do que destruíram quando foram
fraca gente esta que hoje
(murtosa; cais do bico)