postais da ria (81)


nasci para viver

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seguir caminhos feitos
só porque é duro fazê-los
é coisa para sapatos
gastos antes de estrear

eu
vou descalço rasgo os pés
abro os meus caminhos
rasgo leitos sou rio revolto
com ânsia de mar fome de marés

sou o que nasceu para estar vivo

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(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (79)


desconto-me

maré vazia na ria

maré vazia na ria

conto comigo e poucos mais
desconto muitos com que contava
por ter contado mal ao contá-los

conto ainda com o suficiente
para fazer o que na vida me resta
merecer ser feito no tempo que tenho
conto com o tempo e não sei se

conto comigo e desconfio se ao fazer tal
será tão seguro como contar com os outros
que de um corpo dependo e esse tal como
muitos com que contava é cada dia mais
de desconfiar

começo a descontar-me

não é só na ria que a maré vaza

não é só na ria que a maré vaza

(torreira; marina dos pescadores)

postais da ria (78)


sonhei um dia ser ave

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vieram depois os que sabiam
das palavras exactas
dos nomes das coisas e falaram
ensinaram-me a ver
as cores e o por dentro delas

escutei-os no recato da margem

vi como as aves
reescreviam com as asas
na superfície das águas
a palavra voo

sonhei um dia ser ave

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(ria de aveiro; torreira)