postais da ria (71)


provocar é preciso

toda a imagem é uma pergunta por responder

toda a imagem é uma pergunta por responder

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

o início podia ter sido assim

o início podia ter sido assim

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (70)


somos nós

ahcravo_DSC_4710 bw

o meu país é gente
não uma geografia de sol mar
guardanapo no braço dobrado
mesmo se invisível
servil no serviço

o meu país tem muitos nomes
com título anteposto ou não
desempregados sem abrigo
ordenados em atraso
férias em paraísos longe
casas muitas cavalos bastos

o meu país é de carne e osso
para muitos mais osso que carne
para outros poucos só lombo

o meu país está velho e cansado
ou jovem e emigrado

o meu país são tantos
que dizê-lo numa só palavra
é não saber o que é

o meu país somos nós

ahcravo_DSC_4710

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)