o oiro da ria


anfíbia esta gente

anfíbia esta gente

 

a riqueza da ria tem variado ao longo do tempo: o sal, o peixe – nomeadamente as enguias-, o moliço, os bivalves.

nos últimos anos com o quase desaparecimento das enguias, o escassear do choco,  do linguado e da solha, têm sido os bivalves a matar a fome das gentes da ria e arredores.

a ameijoa, chamada “japónica”, que se tem reproduzido de forma surpreendente, é a espécie mais apanhada.

os preços por que são  comprados pelo revendedor, que tudo decide – quando, quanto e por quanto -, ainda vão dando para que as famílias sobrevivam nestes tempos de crise.

muitos são os que do desemprego transitam para a ria.

as licenças de mariscador, atribuídas a bateiras, estão congeladas motivando um aumento do preço de venda de bateiras com licença.

a cabrita baixa, apesar de dura, é a arte onde homens e mulheres povoam literalmente a ria, desde o instante que a “vara de apalpar” mostra que a água já chega só até ao peito, com a maré a vazar, até que seja apanhada a “encomenda” ou a enchente impeça que se continue a apanha.

isto claro nas zonas e nas épocas permitidas pelas autoridades.

(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

8 de março de 2014 (1)


ana tripas a cabritar

ana tripas a cabritar

a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.

é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.

são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.

o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.

na ria é assim

(torreira; cabrita baixa; 2012)

tu no centro


 

 

como se formigas

como se formigas

uma frágil linha
ténue
brevíssima
separa o real do real

(confunde-te o que digo
mas escuta)

se longe ou de perto
o mesmo
é muito diferente
como o vires
assim o darás

a beleza longe
é dor se perto
ambas reais
que tu recrias
em coisa única
sem o saberes

não sejas apenas
os teus olhos
(torreira; cabrita de pé)

cabrita baixa ou dança da ria


 

na placidez das águas

caminham

arrastam mais que o corpo

o peso do pão

 

cerram os dentes

apertam os punhos

sofrem

muito

 

porém

dançam

dizes tu que vês

e não entendes

 

do fundo da ria

vêm os bivalves

do fundo das gentes

forças desconhecidas já

é tempo de safar o ano

 

dirás que dançam

dir-te-ei que esta é outra

forma de sobreviver

 

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sobre este tema foi elaborado o seguinte projecto:

– uma descrição da arte: aparelho e modo de proceder

– um fotofilme genérico

– 6 documentários de pormenor

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descritivo:

a arte da cabrita baixa é utilizada para a apanha de bivalves (neste caso amêijoa japónica) de modo apeado. nela participam homens, mulheres e adolescentes.

a apanha faz-se na vazante, logo que haja calado para trabalhar, até que o mesmo se perca, já na enchente.

o aparelho é constituído por:

– haste: em eucalipto de cerca de 2 metros
– cabrita: semi-circunferência em ferro, em média com 30 dentes de 6 cm
– redenho: com malha de 35mm e comprimento variável, de 1m a 1,5m
– bóia: presa no topo do redenho
– tirante: normalmente em rede de nylon grossa, ata à cintura e prende na base da haste, é nele que grande parte do esforço assenta.
– peso: cilindro de aço ou ferro, de 5kg a 10 kg, fixado na base da haste, junto à cabrita

(peso total do aparelho: 10 a 15 kg)

acessório

vara de apalpar: com altura variável (normalmente um pouco mais de 2 metros), serve para o pescador ir vendo altura da água e comparar com a sua, ficando assim a saber, no caso de decidir iniciar a faina “por onde lhe irá dar a água”.

o cabritar:

a cabrita é atirada à ria e com o peso que tem enterra-se no fundo, depois é arrastada com movimentos de cintura enquanto os braços a mantêm o mais fundo possível.

podemos distinguir os seguintes momentos na faina:

– arrastar
– ver e lavar o redenho na ria
– levar a cabrita até à bateira, se tiver apanhado o suficiente
– deitar a cabrita na bateira, com o redenho na água
– fazer a última lavagem de limpeza na ria
– descarregar o redenho na bateira

é uma arte muito dura e que provoca problemas nos músculos dos braços – no cotovelo formam-se bolas de músculo,

muito dolorosas.

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fotofilme: cabrita baixa, torreira 2012

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documentário 1:  vara de apalpar, cabritar

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documentário 2:  cabritar e cirandar a bordo

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documentário 3: lavar e descarregar o redenho no barco

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documentário 4:  o tirante

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documentário 5:  as mulheres

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documentário 6: a dança do cabritar