no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles
no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres
a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões
somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor
ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido
mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?
o tempo gabriel o tempo o tempo que tu tão bem construíste e desconstruíste
algures na floresta de maconde um coronel mortes anunciadas (a tua a nossa a de todos) cem anos putas tristes quantas histórias fantasticamente reais os buendia sempre
o tempo levou-te o tempo de estares aqui gabo
a névoa envolve tudo a labuta dos dias da escrita dos jornais dos livros dos editores das palavras gabo
por entre uma outra névoa três homens arrancam da lama da ria com que sobreviver nesta terra nunca te leram não sabem quem és
a riqueza da ria tem variado ao longo do tempo: o sal, o peixe – nomeadamente as enguias-, o moliço, os bivalves.
nos últimos anos com o quase desaparecimento das enguias, o escassear do choco, do linguado e da solha, têm sido os bivalves a matar a fome das gentes da ria e arredores.
a ameijoa, chamada “japónica”, que se tem reproduzido de forma surpreendente, é a espécie mais apanhada.
os preços por que são comprados pelo revendedor, que tudo decide – quando, quanto e por quanto -, ainda vão dando para que as famílias sobrevivam nestes tempos de crise.
muitos são os que do desemprego transitam para a ria.
as licenças de mariscador, atribuídas a bateiras, estão congeladas motivando um aumento do preço de venda de bateiras com licença.
a cabrita baixa, apesar de dura, é a arte onde homens e mulheres povoam literalmente a ria, desde o instante que a “vara de apalpar” mostra que a água já chega só até ao peito, com a maré a vazar, até que seja apanhada a “encomenda” ou a enchente impeça que se continue a apanha.
isto claro nas zonas e nas épocas permitidas pelas autoridades.
não sei
como
fugir
deste ser
aqui
agora
as palavras
por dentro
do dia
o dia
por dentro
das palavras
entrançados
amor
desejo
metáforas
carícias
veniais coisas
vãs
exercício
sempre
ao lado
não sei
como
não dizer
aqui
agora
BASTA
o peso
é
insuportável
sem
o grito
sobre este tema foi elaborado o seguinte projecto:
– uma descrição da arte: aparelho e modo de proceder
– um fotofilme genérico
– 6 documentários de pormenor
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descritivo:
a arte da cabrita baixa é utilizada para a apanha de bivalves (neste caso amêijoa japónica) de modo apeado. nela participam homens, mulheres e adolescentes.
a apanha faz-se na vazante, logo que haja calado para trabalhar, até que o mesmo se perca, já na enchente.
o aparelho é constituído por:
– haste: em eucalipto de cerca de 2 metros
– cabrita: semi-circunferência em ferro, em média com 30 dentes de 6 cm
– redenho: com malha de 35mm e comprimento variável, de 1m a 1,5m
– bóia: presa no topo do redenho
– tirante: normalmente em rede de nylon grossa, ata à cintura e prende na base da haste, é nele que grande parte do esforço assenta.
– peso: cilindro de aço ou ferro, de 5kg a 10 kg, fixado na base da haste, junto à cabrita
(peso total do aparelho: 10 a 15 kg)
acessório
vara de apalpar: com altura variável (normalmente um pouco mais de 2 metros), serve para o pescador ir vendo altura da água e comparar com a sua, ficando assim a saber, no caso de decidir iniciar a faina “por onde lhe irá dar a água”.
o cabritar:
a cabrita é atirada à ria e com o peso que tem enterra-se no fundo, depois é arrastada com movimentos de cintura enquanto os braços a mantêm o mais fundo possível.
podemos distinguir os seguintes momentos na faina:
– arrastar
– ver e lavar o redenho na ria
– levar a cabrita até à bateira, se tiver apanhado o suficiente
– deitar a cabrita na bateira, com o redenho na água
– fazer a última lavagem de limpeza na ria
– descarregar o redenho na bateira
é uma arte muito dura e que provoca problemas nos músculos dos braços – no cotovelo formam-se bolas de músculo,
muito dolorosas.
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fotofilme: cabrita baixa, torreira 2012
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documentário 1: vara de apalpar, cabritar
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documentário 2: cabritar e cirandar a bordo
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documentário 3: lavar e descarregar o redenho no barco