recusa a terra
dono ter para além
de ser ela tudo
todos
terra e tempo
confundem-se no seres
tu aqui mais um
tão só
aceita o instante
em que és
fruto e terra
adubo serás
(cais do bico; murtosa)
escorregar pelos dias
deitado no chão herdado
imóvel
quase não vivo
quase
tão fácil não ser
tão fácil o sim a todos
tão cómodo
sentado na soleira da porta
qual gato à espera da festa
que festa poderá haver
nunca se sabe
os mortos agradam a todos
porque estão
e tu?
(torreira; companha do marco; 2012)
a ilha do amoroso, uma das três grandes ilhas existentes na ria de aveiro – monte farinha, testada e amoroso -, era propriedade do meu tio avô césar cravo (também conhecido por césar gorim), arcênsio cunha e antónio silva, todos relacionados por parentesco entre as esposas.
quem fazia o pagamento aos moliceiros era o meu tio césar, o que me permitiu assistir a uma das mais belas cenas da minha juventude: o pagamento semanal aos moliceiros e mercantéis.
todos os domingos, no fim da missa, com a “roupa de ver a deus”, os donos dos barcos dirigiam-se a casa do meu tio avô, que os esperava à porta, na eira, com uma garrafa de vinho fino, um cálice e um saco de pano. um a um iam chegando e cada um dizia: sr. césar são tantas barcadas de moliço, tantas de arrolado, tantas de junco, o que dá… e o pagamento era feito para dentro do saco e anotado.
havia dois tipos de moliço: o que era apanhado no fundo e o que andava à superfície da ria (arrolado), tinham preços diferentes, o primeiro era mais caro.
o junco, era apanhado em terra, com gadanhas, e carregado por mercantéis ou moliceiros.
ambos serviam para adubo, embora o junco fosse utilizado para fazer a cama dos currais, a nas “casinhas” ….. antes de ser usado como adubo.
MOLICEIROS SEMPRE!!!!!!!!
(ria de aveiro; s. paio, setembro, 2014)
mais que eu
sou todos os que antes de mim
acrescentaram páginas ao livro da memória
deixaram-me o recebido
distribuo-o
o que resta do ter sido
o ser eu aqui inquieto
enquanto
quebro o vidro atravesso-o
firo-me sangro toco tudo
até onde
estou vivo
(torreira; marina dos pescadores)
dos moliceiros e do moliço
até meados da década de 60 do século passado, os montes de moliço cobriam todo cais do bico.
segundo os dados coligidos pelo comandante rocha e cunha, no livro ” notícia sôbre as indústrias marítimas na área da jurisdição da capitania do pôrto de aveiro” (1938, gráfica aveirense)
“ …. em 1938 existiam na ria 1750 moliceiros, que rendiam 3.600.000$00.
pesca lagunar no mesmo ano:
nº de pescadores- 1.255; nº de redes – 1.354; rendimento – 1.981.582$00.”
percebe-se assim a importância que o moliço tinha na economia da ria de aveiro.
era tal a quantidade apanhada que houve que estabelecer um período de defeso, correspondente ao da desova e criação dos peixes que escolhiam a ria como maternidade.
(torreira; regata s. paio, setrembro, 2014)

o moliceiro “cristina e sara”, do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria
reconheço-lhe a elegância
no fino traço dos mestres construtores
a tradição inscrita na beleza
com que vogava e ainda voga
nas águas da ria
passou o tempo do adubo natural
do moliço colhido no fundo da ria
broa de milho comida à mesa
com sabor a maresia
foi o tempo do trabalho da ferramenta
não foi o fim do tempo
mas o começo de uma nova aventura
a do amor por ti pelo que foste pelo que és
o da preservação da história de um povo
o murtoseiro
não te quero num canto qualquer coberto de pó
abandonado pelos que ajudaste a crescer
pelos falsas manifestações verbais de afecto
não quero sequer que te façam um retrato novo
onde já não moras porque nunca foste
para melhor venderem o que já não têm
quero-te assim
um moliceiro à maneira
ao contrário dos rios
correr para a nascente
procurar na rocha
os cristais de água
recusar a ilusão
desconstruir a máscara
por mais bela
escutar o silêncio
por demais repetido
onde se acolhe a voz da razão
não ser teu o tempo
onde a tua voz
será o melhor tempo
vê bem quando olhas
diz o que pensas
calar é
há quem sorria só hoje
(regata de moliceiros, s. paio, torreira, setembro, 2014)