crónicas da xávega (28) – e tu?


estendido o saco, abri-lo-ão e o sol virá depois secá-lo

estendido o saco, abri-lo-ão e o sol virá depois secá-lo

escorregar pelos dias
deitado no chão herdado
imóvel
quase não vivo
quase

tão fácil não ser
tão fácil o sim a todos
tão cómodo

sentado na soleira da porta
qual gato à espera da festa
que festa poderá haver
nunca se sabe

os mortos agradam a todos
porque estão

e tu?

virá o sol

virá o sol

(torreira; companha do marco; 2012)

os moliceiros têm vela : da memória


assim o moliceiro

assim o moliceiro

a ilha do amoroso, uma das três grandes ilhas existentes na ria de aveiro – monte farinha, testada e amoroso -, era propriedade do meu tio avô césar cravo (também conhecido por césar gorim), arcênsio cunha e antónio silva, todos relacionados por parentesco entre as esposas.

quem fazia o pagamento aos moliceiros era o meu tio césar, o que me permitiu assistir a uma das mais belas cenas da minha juventude: o pagamento semanal aos moliceiros e mercantéis.

todos os domingos, no fim da missa, com a “roupa de ver a deus”, os donos dos barcos dirigiam-se a casa do meu tio avô, que os esperava à porta, na eira, com uma garrafa de vinho fino, um cálice e um saco de pano. um a um iam chegando e cada um dizia: sr. césar são tantas barcadas de moliço, tantas de arrolado, tantas de junco, o que dá… e o pagamento era feito para dentro do saco e anotado.

havia dois tipos de moliço: o que era apanhado no fundo e o que andava à superfície da ria (arrolado), tinham preços diferentes, o primeiro era mais caro.

o junco, era apanhado em terra, com gadanhas, e carregado por mercantéis ou moliceiros.

ambos serviam para adubo, embora o junco fosse utilizado para fazer a cama dos currais, a nas “casinhas” ….. antes de ser usado como adubo.

MOLICEIROS SEMPRE!!!!!!!!

beleza de cisne

beleza de cisne

(ria de aveiro; s. paio, setembro, 2014)

postais da ria (45) – meditação à beira de


marina dos pescadores, torreira, maré cheia

marina dos pescadores, torreira, maré cheia

mais que eu
sou todos os que antes de mim
acrescentaram páginas ao livro da memória
deixaram-me o recebido
distribuo-o

o que resta do ter sido
o ser eu aqui inquieto
enquanto

quebro o vidro atravesso-o
firo-me sangro toco tudo
até onde

estou vivo

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(torreira; marina dos pescadores)

moliceiros sempre (1)


o voo dos cisnes

o voo dos cisnes

dos moliceiros e do moliço

até meados da década de 60 do século passado, os montes de moliço cobriam todo cais do bico.

segundo os dados coligidos pelo comandante rocha e cunha, no livro ” notícia sôbre as indústrias marítimas na área da jurisdição da capitania do pôrto de aveiro” (1938, gráfica aveirense)

“ …. em 1938 existiam na ria 1750 moliceiros, que rendiam 3.600.000$00.

pesca lagunar no mesmo ano:

nº de pescadores- 1.255; nº de redes – 1.354; rendimento – 1.981.582$00.”

percebe-se assim a importância que o moliço tinha na economia da ria de aveiro.

era tal a quantidade apanhada que houve que estabelecer um período de defeso, correspondente ao da desova e criação dos peixes que escolhiam a ria como maternidade.

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(torreira; regata s. paio, setrembro, 2014)

postais da ria (44) – um moliceiro à maneira


o moliceiro "cristina e sara", do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria

o moliceiro “cristina e sara”, do ti virgílio, é de tamanho inferior ao de um moliceiro tradicional, mas como ele há pelo menos 4 a vogar nas águas da ria

reconheço-lhe a elegância
no fino traço dos mestres construtores
a tradição inscrita na beleza
com que vogava e ainda voga
nas águas da ria

passou o tempo do adubo natural
do moliço colhido no fundo da ria
broa de milho comida à mesa
com sabor a maresia

foi o tempo do trabalho da ferramenta
não foi o fim do tempo
mas o começo de uma nova aventura
a do amor por ti pelo que foste pelo que és
o da preservação da história de um povo
o murtoseiro

não te quero num canto qualquer coberto de pó
abandonado pelos que ajudaste a crescer
pelos falsas manifestações verbais de afecto
não quero sequer que te façam um retrato novo
onde já não moras porque nunca foste
para melhor venderem o que já não têm

quero-te assim
um moliceiro à maneira

um moliceirinho à maneira

um moliceirinho à maneira

postais da ria (42) – moliceiros, uma memória condenada?


como é enorme o pequeno moliceiro do ti virgílio!

como é enorme o pequeno moliceiro do ti virgílio!

ao contrário dos rios
correr para a nascente
procurar na rocha
os cristais de água

recusar a ilusão
desconstruir a máscara
por mais bela

escutar o silêncio
por demais repetido
onde se acolhe a voz da razão

não ser teu o tempo
onde a tua voz
será o melhor tempo

vê bem quando olhas
diz o que pensas
calar é

há quem sorria só hoje

isto são moliceiros

isto são moliceiros

(regata de moliceiros, s. paio, torreira, setembro, 2014)