haverá sempre o homem
para além da máquina
será nele que outro homem
confiará o peso dos dias
à memória do arrais zé murta; torreira; 2009
será esta a última série de registos sobre os levantamentos de s. bartolomeu e o afundamento do cais do bico. foram feitos cerca das 18h, no fim da maré.
hoje dia 22 é-me impossível estar lá para registar aquela que será, segundo quem sabe, a maré mais alta, por volta das 19h.
quando escrevo “afundamento do cais do bico”, escrevo também afundamento de algumas centenas de milhares de euros, ou milhões, que não foram devidamente investidos.
quem os pagou? todos nós
o erro está à vista de todos, quem errou, também estará?
quando se fala da responsabilização dos políticos, será que aqui também se afunda e se confunde com as águas? será que bóia?
a maravilha das maravilhas é que, se calhar, onde o bico se afunda há quem continue a nadar.
bons banhos ……
cais nascente
cais poente
as fotos que se seguem foram tiradas cerca das 17h, hora da pré-mar.
a água continua, no entanto, a subir no cais durante mais algum tempo, até que o nível das águas no exterior baixe o suficiente.
haverá assim que considerar, no caso do cais do bico, mais um atraso de maré.
tome-se como referência a hora da maré na barra de aveiro e façam-se os seguintes atrasos:
– 1h30m para o bico
– ???????????? para dentro do cais
sempre a maravilhar-me
publicada em 2012, na quetzal, com uma tiragem de 1.500 exemplares, a “Poesia Reunida” de Maria do Rosário Pedreira, tem sido para mim uma obra obra de leitura desgastante e ainda não concluída; por um motivo simples: a cada poema falta-me o ar.
a emoção escreve-se pela mão da autora, sente-se, respira-se, sufoca-se de tanta. a simplicidade da escrita, tão difícil de conseguir, torna-a acessível a quem sabe ler em português e sentir em qualquer língua.
há muitos, muitos anos, desde eugénio de andrade, que não encontrava uma poética assim: deslumbrante de tão nossa, tão …. porque não fui eu a escrever?
num país de poetas – veja-se o quantos no face …. – interrogo-me: como é que uma obra destas, com uma tiragem tão reduzida e já quase com um ano de edição, ainda não esgotou?
do deslumbramento que tem sido caminhar pela poesia de maria do rosário pedreira, com falta de ar, claro, aqui fica um momento de sufoco:
“A Criação do Mundo
Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas – um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.
Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.
Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim
descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
revolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras
nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.
E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo.
Maria do Rosário Pedreira em “O Canto do Vento nos Ciprestes” e “Poesia Reunida”, Quetzal 2012”