(i)
os poemas longos
cansam
os teus dedos não
(ii)
se acenderes
a vela
apagas a noite
(iii)
onde o teu corpo
arde
o meu queima-se
até breve nicole
findos os lanços
a praia ficava para trás
o mar mais longe
caminhavas para terra
para a ti rosa
onde os amigos que já não
te esperavam:
o ti miguel bitaolra
o teu amigo maior
todos
todos na ti rosa
eram teus amigos
todos
todos na ti rosa
são teus amigos
todos
todos na ti rosa
sabem de cor o teu nome
porque o têm gravado no coração
coração de pescadores
onde os peixes por vezes
têm nome de gente
foste e serás sempre
um deles
(torreira; companha do marco; 2010)
estou assim
piano
moltissimo
estou assim
piano não sei de chão
dessa coisa chamada terra
onde os pés o corpo
poisam
assim mesmo como se
talvez quem sabe tu?
não sei se porque
não te sei também
aqui sou tudo
sou tudo
e não sou ninguém
o piano
leva-me nos braços das notas
ao encontro da noite longuíssima
onde outrora a ternura
tingia de cores garridas
os lençóis
loucos
foram os tempos
e eu
eusei
que vou deixar de ser
um dia
e tu nicole?
continuas a olhar para mim
com um barco pelo meio
mais que um barco
uma barreira de língua
que sabias tu de português?
pouco
que sabia eu de ucraniano?
nada
que sabiamos um do outro?
tanto!
família longe, dizias,
pescadores: família aqui
amigos muitos aqui
nicole
onde quer que estejas
mesmo que não estejas
continuas a estar
AQUI
onde estarás agora nicole?
o horizonte de mar
que conquistaste
perdeste-lo no regresso
à tua terra
aí, soube, partiste de vez
no meu horizonte
nicole
fica o teu rosto
com o sorriso sempre
a família longe
o abraço
a amizade
que só os homens como tu
ofereciam
onde quer que estejas
estás aqui
(companha do marco)