trago nos braços
uma criança
que nunca cresceu
trago-a
nos braços
e sou eu
no aparelho da xávega existem duas mangas: a do reçoeiro e a da mão de barca.
a primeira corresponde à cala (corda) que fica em terra quando o barco larga, a segunda corresponde à cala que o barco traz quando arriba.
a chegada das mangas a terra corresponde ao fechar do “cerco” e conclui o “arrastar para terra” que caracteriza esta arte de pesca e todas as que utilizam este método: chinchorro e xávega .
o que distingue o chinchorro da xávega é a estrutura da rede, quer nas malhagens utilizadas, quer na forma do saco
(torreira; companha do murta; 2006)
hoje é o teu dia
todos os dias
são o teu dia
mesmo que não
o saibas
mesmo que eu
não te saiba
todos os dias
são o teu dia
não sei quem és
não preciso
sei que existes
e por isso
somente por isso
todos os dias
são o teu dia
sussurra o teu nome
existes
tanto basta
para que o dia seja teu
sê nele
deixa que te fale
dos pés
dos caminhos que abrem
dos desejos que constroem
dos amores que perseguem
deixa que fale
dos pés
tão lá em baixo
de nós
tão esquecidos
porém
deixa que te fale deles
e te diga
o nome de todos os dedos
e porque nos ligam à terra
à sua parte inferior
lhe chamaram planta
trata-os com amor
e deixa que te levem
pelos trilhos invisíveis
do sonho
onde ainda é possível
seres
recuso-me a cantar
o outono
celebrarei sempre
o verão
mesmo se já não
o outono dos poetas
é o pó em cima do piano
onde já não há pautas
para músicas de dança
recuso-me
a dizer que quando os dias
diminuem e a noite cresce
me invade a serenidade
outonal pintada de oiro
pudesse eu sentar-me
ao piano que não tenho
e martelaria nas teclas
o meu grito de raiva
por o verão me ter
mais uma vez abandonado
quero sol e mar
o mais é insosso