josé luís peixoto apresenta “galveias”, em coimbra


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o interior do café sta cruz, em janeiro, de acordo com o calendário de “galveias”

depois, muito depois dos homens, ficam alguns livros, muitas estórias e, por vezes, os nomes e imagens de alguns autores. ser efémero é ser humano, permanecer para além dos dias habitados é deixar obra.

com “galveias”, josé luís peixoto corre o sério risco de continuar a habitar esta coisa chamada vida, muito tempo depois de ter abandonado a casa que o acolheu, que nos acolhe. quando um livro nos dá prazer e trabalho, é um LIVRO. galveias é. o josé luís permanecerá.

fica aqui o registo possível da apresentação em coimbra, no café sta cruz, no dia 17 de outubro, de 2014 e um parágrafo de “galveias”, que me marcou pela beleza, simplicidade e trabalho de sentir que o josé luís consegue escrever assim.

“ANTES, COSTUMAVA GOSTAR DE SETEMBRO. Na sua lembrança, era um mês afável, que tratava os dias com uma cortesia fina, ligeiramente arcaica. Começava mais quente, a tocar em , agosto, e acabava mais fresco, pronto a dar a vez a outubro, sem escândalo, com a natureza preparada, sempre em respeito e lisura.”

José Luís Peixoto, in “Galveias“

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o interior do café sta cruz, em setembro, de acordo com o calendário de “galveias”

quando os editores escrevem……


a capa do livro

a capa do livro

 

a propósito de “para onde foram os guarda-chuvas”

mais um excelente livro de afonso cruz, com outro livro lá dentro – “Fragmentos Persas”.

a quem ainda não conhece o autor, recomendo este livro e depois… depois há os anteriores e vai-se até ao princípio possível.

mas não é do que escreveu o autor que quero falar, é do que a editora escreveu, isso sim, muito interessante.

no verso da penúltima página do livro, há uma “NOTA DA EDITORA”, que transcrevo

 

Entre os 5000 exemplares da primeira edição deste romance existem 2 que são completamente diferentes: um é a versão diurna, outro a sua versão nocturna.

Se o seu exemplar contém a palavra <Ankara>, escreva-nos para correio@objectiva.pt.

Temos uma oferta para si

 

como encomendei o livro mal soube da edição e o li em pouco tempo, com afonso cruz é assim, a 100 à hora, cheguei ao final, li a “Nota Editorial” e, no dia 26 de outubro, enviei um e-mail para o endereço indicado, imbuído do estilo do livro que tinha acabado de ler:

 

com licença


o meu exemplar de ” Para onde vão os guarda-chuvas” contém a palavra “Ankara”, aliás como em todos os outros já que, penso, a nota está em todos .

fragmento persa não encontrado

” disse Ali: muitos sabem ler, ó crente, porém nem todos sabem o que leram. alá seja louvado”

cumprimentos

 

como não obtive qq resposta, voltei ao ataque no dia 29, com novo e-mail no espírito do livro. foi assim:

 

com licença

a haver, a vossa maior surpresa para mim, seria o envio, a pagar, do livro “A carne de Deus”, o único romance de Afonso Cruz que não tenho.

fragmento persa nunca encontrado

” disse Ali: os livros não vão para o mesmo sítio que os guarda-chuvas, ó crente, mas também andam muitos infiéis à sua procura. alá seja louvado”

cumprimentos”

 

ao fim destes meses todos, nada. esqueci e não esqueci. a semana passada, por mero acaso encontro-me com um representante da editora e conto-lhe o que se passou.

que sim, que havia dois exemplares diferentes, que eu não devia ter enviado o mail para endereço correcto. quanto ao facto de a nota da editora ser algo sem sentido, remeteu para …. nem me lembro quem, porque afinal “há sempre outro”.

é pena que a edição dos nossos melhores autores esteja assim entregue a quem brinca com a língua que parece desconhecer.

fica aqui o desabafo e a melhor coisa é não acreditar no que lês, isso é ficção, embora não seja da melhor.

por favor leiam o livro e todos os outros do afonso cruz, ele não tem culpa

 

afonso cruz na lápis de memórias_estórias (os vídeos)


 
 
afonso cruz

afonso cruz

 

 

vídeo 1

 

 

“7 de Abril

 

Não, disse o meu irmão.Quem põe ovos de chocolate são os coelhos da Páscoa, não são as galinhas de chocolate.

Evidentemente.

 

 

10 de Abril

 

No circo, ficamos a saber que os coelhos nascem de chapéus.

E não de ovos”

 

 

in “O Livro do Ano”

 

 

 

 

vídeo 2

 

 

do autor

 

 

“4 de Maio

Hoje, um homem aproximou-se de mim.Vestia fato e usava gravata, mas eu reconheci-o de imediato.

Era um homem do Instituto. Estava disfarçado de pessoa normal.

Perguntou-me as horas e eu disse: Tenho dois trovões dentro de um envelope dos correios. O da esquerda é de madeira e o do meio é fêmea.É assim que nascem as cartas.

Ele, surpreendido com a minha resposta, foi-se embora e não me internou.

Mas, por via das dúvidas, fui para casa com os sapatos calçados nas mãos”

 

 

in “O Livro do Ano”

 

 

 

 

vídeo 3

 

 

do autor

 

 

“5 de Julho

 

Tenho pena das pedras, sempre tão duras.

As pedras grandes gostam de aparecer em postais.

E as pedras pequenas gostam de aparecer em sapatos”

 

 

in “O Livro do Ano”

 

 

 

 

vídeo 4

 

 

do autor

 

 

“27 de Setembro

Caiu uma folha de um livro. Já é Outono
3 de Dezembro

O meu avô diz que a felicidade é uma péssima corredora e que é fácil fugirmos dela.

E a tristeza?, perguntei

É uma excelente corredora, respondeu ele”

 

 

in “O Livro do Ano”

 

 

afonso cruz na lápis de memórias (1)


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no dia 20 de março de 2013, o multifacetado criador afonso cruz esteve em coimbra, na lápis de memórias, para apresentar os seus mais recentes livros: “o livro do ano” e ” enciclopédia da estória universal_arquivos de dresner”.

Afonso Cruz

Nasceu, em Julho de 1971, na Figueira da Foz e haveria, anos mais tarde, de viajar por mais de 60 países. Frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Em 2008, publicou o seu primeiro romance, A Carne de Deus — Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites, ao qual se seguiria, em 2009, Enciclopédia da Estória Universal, galardoado com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Em 2011, publicou Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho, Prémio Literário Maria Rosa Colaço) e A Contradição Humana (Caminho, prémio Autores SPA/RTP). Em 2012, foi o autor português distinguido com o Prémio da União Europeia para a literatura pelo livro A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010). Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara, 2012) foi considerado o Livro Português do Ano pela revista Time Out Lisboa e o Melhor Livro do Ano segundo os leitores do jornal Público. Foi eleito, pelo jornal Expresso, como um dos 40 talentos que vão dar que falar no futuro. Os seus livros mais recentes são Enciclopédia da Estória Universal — Arquivos de Dresner eO Livro do Ano, ambos publicados pela Alfaguara, em 2013. Assina, desde fevereiro de 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, sob o título Paralaxe.Além de escrever, é ilustrador, realizador de filmes de animação e membro da banda.The Soaked Lamb.

(fonte bookoffice)

 

do autor

 

Política

 

Os animais não falam.

Mas alguns deles discursam”

 

in Enciclopédia da Estória Universal, Arquivos de Dresner

 

 

10 de Maio

 

Estive a ver uma planta a furar a terra…

As plantas procuram a luz como as traças e os filósofos”

 

in O Livro do Ano

 

publica-se em seguida o primeiro de uma série de vídeos da apresentação

 

 

maria toscano_da viagem das casas_lançamento


da esq p/ a drt: rui grácio, maria toscano, domingos lobo

da esq p/ a drt: rui grácio, maria toscano, domingos lobo

no passado dia 14 de março de 2013, na casa da escrita, em coimbra, maria toscano apresentou o seu primeiro livro de prosa ” da viagem das casas”, aqui fica o registo da intervenção, brevíssima, da autora.

nota biográfica
maria de fátima costa toscano

nasceu em campo maior em maio de 1963. é membro da ape. autora de poesia e prosa, em português desde 1973, editada em espanhol desde 2003, escreve em francês e inglês desde 2011. 7 livros de poesia publicados, 1 e-book e integra várias colectâneas de poesia.

estudou música, teatro e canto. em lisboa e coimbra criou cafés-concerto. canta fado, jazz e música clássica. nos anos 90 cria leituras encenadas sem a 4ª parede e críticas das técnicas de declamação.

em 2009, participa no iii festival internacional de poesia (Brasil, Dois Córregos), onde é poeta estrangeira convidada.

em 2010 realiza uma visita à argentina para divulgar a sua poesia escrita em espanhol em várias sessões de leitura organizadas pela SAPE e Poetas Argentinos (Buenos Aires, Iguazú…)

……..

texto lido no lançamento do livro “ da viagem das casas”:

“6. sobrados, tectos, saias e desafios

como os conheço… a estes guardas fiscais da fronteira herdados da ditadura, brutos na cama porcos à mesa em copos de tinto sempre a postos e secos, como os conheço bem
andam a par como que a medo, azul na parte de cima, mão no bolso ou na anca ou na coxa sobre a arma
vêm ao longe, olham-me em vão (os meus traços não lhe dizem nada), circundam-me circundam circulam como se feras ou cio de cães
como vos sei da cabeça aos pés todos empinados em casa os filhos brutinhos as filhas freirinhas no vosso pavor de algum como vocês se lhes chegar para genro, filhas de porcelana nem chegam a ser meninas
como vos sei vos abomino e vos domino sem sequer vos tocar
muito empinados nas frustrações de ter lá em casa uma esposa gorducha e despenteada, que se há-de fazer, um homem precisa de ter uma mãe até morrer… como poderia viver com chão janelas sujos a roupa suja e amarrotada, quem lhe faria a comida a cama os filhos os mimos e os caldos e chás dos resfriados, quem, enfim, quem o cuidaria? acobardados na tranquilidade do lar de onde então fazem, descansados, as saidinhas rápidas, tudo sob controle que não sou parvo!
chego a duvidar se são homens ou cães bem treinados cães de guarda cães de cio cães herdeiros da ditadura, sim, cães de cio num inverno eterno nunca domado
cofias o bigode que te enquadra, ceifas a paciência pelos bolsos de mãos no fundo a remexer a mexer a meter-me nojo ou apenas dó da tua miséria de só seres homem de calças baixas à mão mas com peúgas, como lembra o Jorge de Sena”

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o vídeo

miguel miranda apresenta “a paixão de k” em coimbra


 

miguel miranda

miguel miranda

 

Nascido no Porto em 1956, exercendo as funções de médico em Vila Nova de Gaia, é autor de uma obra ficcional já vasta e premiada em Portugal, que começa a projectar-se no estrangeiro (em 2006, o romance Dois Urubus Pregados no Céu foi traduzido em Itália) e a merecer, com justiça, a atenção da melhor crítica literária.

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação de Escritores de Gaia, da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e do Pen Clube Português, Miguel Miranda revelou-se na década de 90 com a colectânea Contos à Moda do Porto (1996), vencedora do Grande Prémio do Conto 1996 da APE, a que se seguiu o romance O Estranho Caso do Cadáver Sorridente (1998), agraciado com o Prémio Caminho de Literatura Policial 1997, ambos depois da menos conhecida obra de estreia, O Complexo de Sotavento (1992). Representado no Dicionário de Personalidades Portuenses de Século XX,publicado pela Porto Capital da Cultura 2001, e no Dicionário Literatura Portuguesa no Mundo, de Célia Vieira e Isabel Rio Novo, incluído em várias colectâneas de contos, Miguel Miranda tem vindo a publicar regularmente. Assim, constam da bibliografia do Autor: Caçadores de Sonhos (1996); Bailado de Sombras (1997); Livrai-vos do Mal (1999); A Mulher que Usava o Gato Enrolado ao Pescoço (2000); A Maldição do Louva-a-Deus (2001);Dois Urubus Pregados no Céu (2002); Princesa Voadora (incursão na literatura infantil, 2003); Como se Fosse o Último (2004); O Silêncio das Carpideiras (2005) e O Rei do Volfrâmio (2008).

Nesta obra considerável, que percorre os mais diversos géneros narrativos, Miguel Miranda retrata quase sempre um universo urbano, povoado de personagens tão estranhas e inesperadas quanto familiares e credíveis.

 

obras do autor

 

 

….

 

http://www.portoeditora.pt/imprensa/noticia/ver/a-paixao-de-k-de-miguel-miranda?id=7342

 

A Paixão de K, de Miguel Miranda

 

Romance, caos e memória no novo livro do escritor portuense.

30.01.2013

 

A 4 de fevereiro, chega às livrarias nacionais o mais recente livro de Miguel Miranda, A Paixão de K, uma história de paixões, de encontros atribulados numa Londres incendiada por distúrbios, e das memórias que se apoderam dos que vivem longe da sua terra-natal. 


Num registo original, com humor e imaginação, Miguel Miranda leva-nos numa viagem envolvente que, desta vez, nos afasta da cidade do Porto, um dos cenários de eleição do autor.


Miguel Miranda celebrou recentemente os seus 20 anos de carreira literária e viu publicados dois dos seus livros em França pelas Editions de l’Aube. Um deles, 
Dai-lhes Senhor, o Eterno Repouso (2011), foi publicado pela Porto Editora, assim como Todas as Cores do Vento (2012).


O LIVRO


Além de perito em arte, Perfecto Cuadrado é um habilidoso falsário, que viaja pelo mundo desenhando rostos anónimos no metropolitano e colecionando mulheres belas e sedutoras. É um homem experimentado na arte de seduzir e de amar. Nada faria prever que se apaixonasse de forma eruptiva por uma mulher misteriosa com quem se cruzou no metro de Londres – Josephine K.


Para Perfecto Cuadrado, a vida é uma sucessão de planos, sendo o presente um refluxo do passado, excetuando dois acontecimentos súbitos: os distúrbios que incendeiam a cidade de Londres e a paixão que arde dentro dele.


A Paixão de K. é uma viagem à insensatez de todas as paixões.

 

o vídeo

 

o livro do espanto


 

livro do ano da autoria de afonso cruz

 

o prazer de passear por entre livros, abri-los, folhear algumas páginas e tentar descobrir algo que me agrade, é uma aventura que por vezes me leva à aquisição de mais um livro, mesmo em momentos de crise.

 

hoje, porém, não foi só uma aventura, sequer um prazer, foi uma viajem ao mundo do espanto.

 

gostei da capa, abri as primeiras páginas e fui lendo, a cada uma que passava era eu que me “passava”, um verdadeiro espanto, cada página uma pérola e eu …. eu de espanto em espanto até ao espanto de não haver qualquer nota biográfica sobre o autor, até nisso era espantoso.

 

aleatoriamente abria-o e lia o que na página encontrada o autor semeara, não houve uma, uma só, em que não me detivesse e me espantasse.

 

simplesmente simples e belo, ainda tremo quando escrevo sobre o que sinto.

 

aos amigos, aos verdadeiros amigos, só posso pedir um favor: não deixem de comprar.

 

falo, se calhar tarde, de “o livro do ano” da autoria de afonso cruz.

 

manuel antónio pina na figueira da foz (7)


manuel antónio pia, foto de sérgio granadeiro, edição bw de ahcravo

manuel antónio pina, foto de sérgio granadeiro, edição bw de ahcravo

 

de manuel antónio pina

 

Cuidados Intensivos

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido, no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos, os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes, os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros, as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

o último vídeo

manuel antónio pina, na figueira da foz (6)


 

manuel antónio pina na revista sábado

manuel antónio pina na revista sábado

 

de manuel antónio pina

 

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

 

Do livro “Aquele que Quer Morrer”

 

o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (5)


 

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

do autor:

 
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
“Os gatos”, de Manuel António Pina

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

 

para ler com o vídeo