os moliceiros têm vela (72)


das causas

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como se bailassem…. e bailam

não tenho ilusões
procuro caminhos
tento não ser mais um

calo o silêncio
procuro a voz certa
a cada instante

ser homem de causas
é a causa de estar aqui

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros à vela têm futuro?


duas gerações o mesmo sonho

duas gerações o mesmo sonho

o abraço que une o ti zé rebeço e o zé pedro, é a prova de que só não há futuro para os moliceiros com vela, se o não quiser quem manda nesta terra.

por experiência própria, sei que se a autarquia não quiser nada se faz. e eles sabem-no. foram eleitos pela esmagadora maioria dos murtoseiros, o que fizerem, ou não, é em nome dessa maioria e com o seu apoio, gostem ou não que eu o diga.

no passado foi o moliço, depois o moliço conviveu com as regatas. agora são as regatas e os passeios. e amanhã?

o zé pedro pode ser o futuro ou mais uma oportunidade perdida. com os poucos anos que tem, já é um arrais com provas dadas.

será que quem manda na terra não vê que ainda há jovens que sonham numa murtosa com moliceiros?

o ti zé rebeço e o zé pedro

o ti zé rebeço e o zé pedro

os moliceiros têm vela (71)


aos moliceiros

mete água? escoa!

mete água? escoa!

homens inteiros
até ao fim
a palavra na mão
que aperta

homens de fibra
feita na lide
dos dias de norte
terras muitas
escritas no corpo
sofridos dias

levarão com eles
mais que o corpo
a história da terra

água que entra tem de sair

água que entra tem de sair

(ria de aveiro; regata de ria; 2014)

os moliceiros têm vela (70)


maldigo os chulos

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terem os homens
o tamanho dos barcos
unidos na mesma frema

falo da terra e uso
a sua linguagem
palavras inventadas
como tudo o que é
marca de lugar

indescritível o amor
indizível o sentir

olho-os e invejo neles
o serem assim
tão uns dos outros

maldigo os chulos

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(murtosa; regata do bico; 2008)

os moliceiros têm vela (68)


do sonho

a beleza do chegar

a beleza do chegar

espero dos dias
o serem um a um
o caminho para

desconheço quando
onde porquê

parte-se sempre
chega-se por vezes

abro a porta e deixo
o vento entrar

sou o que ficou
e aprendeu a sonhar

o pintar da ria

o pintar da ria

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (67)


do resistir

o ti abílio é timoneiro

o ti abílio é timoneiro

espectador de mim
desreconheço-me

haver um corpo
é haver eu
cada vez menos

são a descer os dias
naufrago neles
uma agonia sabida
não aceite

resisto

um dizer da murtosa: "a viola está nas mãos do zé ruivo"

um dizer da murtosa: “a viola está nas mãos do zé ruivo”

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

ao leme o ti abílio

os moliceiros têm vela (66)


da terra e das gentes

nem para mortalha, que tal não merecem

nem para mortalha, que tal não merecem

amortalhados serão os sonhos
na brancura de nada mais haver
que a memória

falarão dos dias havidos como se
tivesse de ser assim destino
fado português

ficam vozes perdidas no azul
aves de asas cortadas
um canto triste

tudo o que foi não será mais
não haver gente nesta terra
é ter ela o tamanho do seu
cemitério

que não descansem em paz

toda a beleza e é só pano

toda a beleza e é só pano

(torreira; regata da ria; 2014)

os moliceiros têm vela (64)


do social

a espera

a espera

caminham silenciosos
sensíveis que são ao ruído
dos primeiros passos

aparecem sempre sobre o tarde
dizem de sua justiça
o não dever ser assim como é

arriscam pouco cautelosos
no segundo lugar
da segunda fila a sua cadeira

são a sombra que bebe do sol
o terem voz breve avinagrada

gosto deles como de
certos animais

longe

inventar os  dias

inventar os dias

(murtosa; regata do bico; 2012)