os moliceiros têm vela (78)


do sorriso

no moliceiro "dos netos" o ti abílio e o ré rebelo (seu pupilo)

no moliceiro “dos netos” o ti abílio e o zé rebelo (seu pupilo), a chegarem a aveiro

solares os dias em que sorris
renascido de um tempo parado

és-me de novo não sei por
quanto tempo mais

sou inteiro por instantes

mestre e pupilo, em lição de velejar

mestre e pupilo, em lição de velejar

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

no moliceiro “dos netos”, o ti abílio e o zé rebelo

os moliceiros têm vela (77)


dos gatos

em bando vogam

em bando vogam

à janela o gato sábio
lambe os bigodes fartos
queda-se imóvel
no gastar dos dias

sereno constrói o salto
imagina a presa sem pressa
espera espera espera

crítico
não desespera
o gato

gosto do laborioso rato

toda a beleza é aqui

toda a beleza é aqui

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (75)


um nós novo

nós

nós

traz-me tudo menos
esse olhar perdido
onde já nada navega
senão o por dentro
de coisa nenhuma

o vazio é um caminho
não o inicies

empresta-me os teus olhos
deixa que os leve até onde
fomos sol e sombra
ombro a ombro os dias galgados
na cumplicidade concebida
de afectos

o vazio é um não lugar

o braço que te abraça
suporta o peso insuportável
dos anos sobre ti

és tu e eu
um nós diverso
em busca de

nós sempre

nós sempre

(ria de aveiro; regata da ria; 2009)

os moliceiros têm vela (74)


ausente

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico bw

o rosto parado
a expressão ausente
o corpo prisão

resta o que resta
não será muito nem pouco
tão só o que ainda

perdido o sorriso
na voz treme a solidão
ouve-se o medo

é ensurdecedor

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (73)


esperar

ahcravo_DSC_2039 bw

aprender o tempo
no contar pelos dedos

lento muito lento
o movimento

parados os olhos
imóvel o rosto
sem expressão
esperar esperar
não há primavera
nem andorinhas

aprender o corpo
no contar do tempo

o movimento
lento muito lento
até que parado

ahcravo_DSC_2039

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (72)


das causas

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

como se bailassem…. e bailam

não tenho ilusões
procuro caminhos
tento não ser mais um

calo o silêncio
procuro a voz certa
a cada instante

ser homem de causas
é a causa de estar aqui

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros à vela têm futuro?


duas gerações o mesmo sonho

duas gerações o mesmo sonho

o abraço que une o ti zé rebeço e o zé pedro, é a prova de que só não há futuro para os moliceiros com vela, se o não quiser quem manda nesta terra.

por experiência própria, sei que se a autarquia não quiser nada se faz. e eles sabem-no. foram eleitos pela esmagadora maioria dos murtoseiros, o que fizerem, ou não, é em nome dessa maioria e com o seu apoio, gostem ou não que eu o diga.

no passado foi o moliço, depois o moliço conviveu com as regatas. agora são as regatas e os passeios. e amanhã?

o zé pedro pode ser o futuro ou mais uma oportunidade perdida. com os poucos anos que tem, já é um arrais com provas dadas.

será que quem manda na terra não vê que ainda há jovens que sonham numa murtosa com moliceiros?

o ti zé rebeço e o zé pedro

o ti zé rebeço e o zé pedro

os moliceiros têm vela (71)


aos moliceiros

mete água? escoa!

mete água? escoa!

homens inteiros
até ao fim
a palavra na mão
que aperta

homens de fibra
feita na lide
dos dias de norte
terras muitas
escritas no corpo
sofridos dias

levarão com eles
mais que o corpo
a história da terra

água que entra tem de sair

água que entra tem de sair

(ria de aveiro; regata de ria; 2014)