tu


 

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

 

não te agarres ao que foi
o ter sido lhe basta
o que há-de ser
sê-lo-á mesmo se sem ti
só agora
aqui
aquietado o tempo
és

não deixes que a ilusão
do amanhã
seja o teu tempo sonhado

repito
hoje agora já
és

tu

 

(torreira)

olho a ria e penso a urbe


a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo

começam o dia quando

sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa

falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que

perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada

têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui

vivos ainda

 (torreira)

a memória


 

regata de moliceiros, festa do emigrante 2007

regata de moliceiros, festa do emigrante 2007

estou cansado
também eu tenho
direito a não escrever
a ficar assim sem dizer nada
fazendo de conta que digo
só para que penses
que leste

é melhor ficar por aqui
sem nada ter dito
no engano de escrever
só para que julguem
que ainda não morri

o cansaço não chega
à memória
isso vos ofereço hoje

 

(murtosa; bico; regata moliceiros, 2007

dias de memória


 

regata de moliceiros, no bico, murtosa, 20017

 

passeio-me pelos dias
cheio de tudo e de nada
o que tenho me basta

há dias em que o cansaço
o desalento a desilusão
se somam e se tornam
maiores que o próprio dia
são os dias de memória

passeio-me por eles
como se os sobrevoasse
pesado e leve de tanto

chego e parto
fico porque

tudo começa
e acaba sem nunca

vou com as aves
escreveu o eugénio
eu quero ir com os cisnes

quero

(murtosa; bico; regata de moliceiros; 2007)

palavras


 

 

 

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

que de novo trazem
as minhas palavras
para além de minhas serem?
já tudo foi escrito
mortos estão os mestres

novidade
se há no que escrevo
é o facto de ser eu a escrevê-lo
prazer
se há no que escrevo
é tu o entenderes e fazeres teu
o sentir que nelas vai

se escrevo é apenas porque
me é tão necessário
(embora por vezes me canse de)
como respirar
é falar com ninguém falando para muitos

parto com o que trouxe
palavras
(ria de aveiro; torreira)

confissão


deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

chega o dia em que conjugar
os verbos no pretérito
é forma quotidiana de
falar dos dias
somos mais o que fomos do
que o que pensamos vir a ser

somos porque fomos
e no que fomos o termos sido
seja um sorriso hoje
a saudade não cabe no tempo contado
cabe no tempo a descontar
por não haver tanto quanto houve

caminho cansado por vezes
mas com os bolsos cheios de dias
distribuo sorrisos quando digo de mim
histórias que podem parecer inventadas
mas que como eu

estão vivas

deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

(ria de aveiro; torreira)

dos moliceiros


moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista

os moliceiros sempre tiveram três formas de se deslocarem na ria:

– com vento, à vela

– sem vento

1- à vara
2- à sirga (ajudada ou não por vara)

sem vento e se andava por dentro dos canais da ria, onde a vara calava, um dos camaradas ia para terra, atava uma corda, a que se chamava sirga, ao barco (golfião ou onde pudesse) e os dois iam levando o barco.

se a falta de vento ocorria onde a vara não calava, era somente com a ajuda corda que o barco era arrastado pela ria. do nome da corda, à forma de tracção, ficou a designação: andar à sirga

moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista

estar vivo


olho o que vi
e escrevo o que penso
por ter ficado a memória
de ter visto

o longe faz-se perto
tudo pode ser aqui agora
igual jamais
diverso porque recriado

dou-te o que recebi
como revejo hoje
não como o vi

o que te ofereço é
a minha memória

constrói a tua
estás vivo para criar

(regata de moliceiros; murtosa; bico; 2007)