a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo
começam o dia quando
sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa
falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que
perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada
têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui
vivos ainda
deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?
chega o dia em que conjugar os verbos no pretérito é forma quotidiana de falar dos dias somos mais o que fomos do que o que pensamos vir a ser
somos porque fomos e no que fomos o termos sido seja um sorriso hoje a saudade não cabe no tempo contado cabe no tempo a descontar por não haver tanto quanto houve
caminho cansado por vezes mas com os bolsos cheios de dias distribuo sorrisos quando digo de mim histórias que podem parecer inventadas mas que como eu
estão vivas
deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?
moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista
os moliceiros sempre tiveram três formas de se deslocarem na ria:
– com vento, à vela
– sem vento
1- à vara 2- à sirga (ajudada ou não por vara)
sem vento e se andava por dentro dos canais da ria, onde a vara calava, um dos camaradas ia para terra, atava uma corda, a que se chamava sirga, ao barco (golfião ou onde pudesse) e os dois iam levando o barco.
se a falta de vento ocorria onde a vara não calava, era somente com a ajuda corda que o barco era arrastado pela ria. do nome da corda, à forma de tracção, ficou a designação: andar à sirga
moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista