escuta-te


 

 lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

                                                                                    lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

raiva de não poder
prender o tempo
permanecer por dentro
dos instantes em que
o deslumbramento
cresce para mim

escuto de novo o silêncio
a isso te convido também

o que ouves
não é som
é imagem
é música

escuta-te

 

(ria de aveiro; torreira)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

lágrimas de crocodilo


regata da ria; 2011

a ilusão de haver tempo
sem vento de dias
sem sopros
sem

a ilusão de ficar mais
para além de
não saber
se

a ilusão de estar de novo
sempre
sem querer saber que um dia
não mais moliceiros
que a memória
de terem havido

a ilusão não
se pendura nos olhos
por saber que nos gabinetes
haverão quadros homenagens sorrisos
emblemas bandeiras frases desfeitas

lágrimas de crocodilo

(torreira; regata da ria; 2011)

carta a pedro e ….


 

a força do homem

a força do homem

 

como queres que entenda
o que dizes
se do riscado disco
mesmo depois de feito reparo
continua a ouvir-se na sala velha
da velha dama
a antiga canção do bandido

não como números
não os visto
queres que os dê ao pequeno almoço
às crianças e ao almoço ao idosos
os sirva de jantar nas ruas aos sem abrigo

na janela dos teus olhos
só se pendura roupa suja
da tua boca pingam nacos de toucinho velho
come-los tu e dá-nos os teus manjares
isso sim entenderia
entenderíamos

não prestas como vendedor
mas sei como te compraram

(regata da ria; junho 2010)

cisnes da ria (1)


 

 

moliceiros de velas ao vento

moliceiros de velas ao vento

 

a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida

o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa

foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria

moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele

escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia

(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)

 

os cisnes da ria


regata de moliceiros no bico, murtosa

regata de moliceiros no bico, murtosa

pisam um palco
que sempre foi seu
jardineiros de um jardim
ora submerso
ora flutuante

são os mais belos
barcos do mundo
as mulheres dos barcos
machos do mar

esbeltos oferecem-se
ao casamento manso com
as águas virginais
(em tempo diria)
da ria

são tão belos
quanto usados
e desprezados
pelos que os usam
como emblema
orgulho e amor de quem os tem
por filhos e amantes

os cisnes da ria
já são poucos
precisa-se de homens
com h

(bico; murtosa; regata de moliceiros)